in Opinião

Convergência

Um dos notáveis atributos da Web parte II é a sua capacidade inata em derruir as barreiras erguidas pelos meios tradicionais de comunicação e pelas empresas na sua fútil tentativa de controlar as suas marcas e os seus clientes.

Na época denominada pelos jornais, televisão e rádio, cada um estava limitado pela sua própria tecnologia em comunicar de uma única forma com uma massiva audiência. A Internet alterou tudo em que proporcionou ao cidadão comum, armado simplesmente com uma ligação de internet, um computador, e a percepção de uma inata criatividade digna de qualquer profissional de design, a possibilidade de misturar os vários tipos de media numa só única plataforma de comunicação – a Web.

A linha que separava jornais, televisão e rádio, torna-se cada vez mais ténue com cada dia que passa. O novo universo de media na Web permite todos os diversos tipos de media tradicional a depenicar o território de cada um. O Jornal O Público, bem como inúmeros outros jornais, proporcionam uma cobertura que inclui áudio e vídeo no seu site on-line enquanto a SIC Noticias inclui uma cobertura escrita no seu site. Enquanto rádios passaram a ter uma presença fundamental na Web com notícias e vídeos, outros decidiram envergar pelo caminho do podcast, um tipo de programa de “rádio” passível de ser sindicado à audiência mas com uma grande diferença – o ouvinte pode ouvi-lo quando quiser, onde quiser e através do aparelho da sua escolha – mesmo que o iPod continua a ser a escolha de eleição, alargado agora ao iPhone.

Já passou a altura em que se apelava à velha guarda para se actualizar reconhecendo assim a nova realidade e desta forma procurar uma convergência mais adequada ao mundo digital. Rupert Murdoch percebeu e actuou, investindo no MySpace bem como mais tarde em meios reconhecidos pela sua reputação como o caso da Wall Street Journal. Francisco Pinto Balsemão também o reconheceu mas a sua estratégia difere copiosamente à de Murdoch mais parecido como uma estratégia de downsizing ou diminuição de custos, anos de luz do seu congénere. Os resultados são igualmente mesuráveis.

Se numa óptica holística, por outro lado, o Grupo Media Capital (GMC) também não o faz, em pleno contrasto, a Cidade FM (parte do GMC) revela uma capacidade de crescimento orgânico num segmento de enorme concorrência e pouca lealdade através da sua utilização de blogues, podcasts, vídeo e áudio complementado o sucesso da sua frequência. O seu tom humano só vem reforçar a noção que a audiência desenvolve uma relação com pessoas em torno de organizações, neste caso o Pedro Marques ou a Joana Azevedo.

O não reconhecimento da convergência de áudio, vídeo e texto, demonstra a falta de conhecimento dos diversos atributos de cada formato. Existe uma diferença marcadora entre o carácter viral de várias formas de social media em torno do nível de interacção com o mesmo. Vídeos e blogues demonstram uma capacidade de se tornarem viral ao contrário de podcasts mas o mesmo já não se pode inferir no que concerne ao nível de interactividade – podcasts claramente demonstram uma maior capacidade de cativar a sua audiência.

Para uma maior eficácia de SEO (search engine optimization), ou seja a sua visibilidade nas pesquisas de motores de busca, os blogues criam oportunidades de descobrimento incomparáveis a outros meios. Enquanto vídeo tem uma capacidade de se tornar mainstream, podcasts estão destinados ao conteúdo específico e pouco generalista tendo em conta a sua capacidade de conectar com uma audiência influenciadora através do seu conteúdo de nicho. Consumidores têm demonstrado uma maior apatia aos restantes formatos do que o vídeo.

Existe um consenso na opinião de que é mais difícil o visionamento de vídeos que o mero ouvir de um podcast. Vídeos e blogues requerem uma maior atenção por parte da audiência porem o podcast, sendo um meio passivo, pode ser ouvido em conjunto com outras actividades, sejam essas a condução de um veículo ou o exercício. Esta comparação infere que podcasts tem menos limitações na quantidade de conteúdo que por exemplo vídeo. Não será por acaso então que o vídeo de 3-5 minutos continua a ser o mais visionado enquanto podcasts podem ir dos 12 minutos a autênticos programas de opinião tais como o FIR (for immediate release) que raramente se limita a menos que uma hora.

As formas diferentes de media disponíveis para servir os diversos propósitos requerem um desdobramento dos meios mais adequados sendo que a convergência destes meios, de forma coesiva, resulta numa experiência positiva para quem procura se entreter, informar e/ou interagir com o conteúdo apresentado.

Noviços nos meios de comunicações mas veteranos de tecnologia, estão a construir autênticos impérios de comunicação pelo “simples” reconhecimento da actual convergência, amalgamando vídeo, áudio e texto para que a sua mensagem chegue à pretendida audiência, que no caso de Michael Arrington com o seu site TechCrunch, Tim O´Reilly com a sua impressionante empresa que inclui as principais conferências sobre a Web 2.0, ou até Robert Scoble que inclui um dos mais celebres blogues, podcasts, livros de autoria e o seu programa ScobleizerTV. Cada um possui a capacidade de convergir todo o conteúdo em formatos diferentes numa única coesiva plataforma.

Não é que os meios tradicionais não o estejam a fazer – estão, só que de forma relutante e à velocidade adequada à sua forma de estar (lento). As suas abordagens de “molhar o dedo do pé” através de intercâmbios de contribuições entre plataformas revelam pouca ousadia e revertendo-se assim em resultados pouco significantes, em alguns casos mal interpretados como uma falha na importância de Social Media.

Antes da presente crise financeira, já os meios tradicionais instauravam despedimentos em números consideráveis para dar face ao contínuo decréscimo de leitores e receita; ou até Craigslist.com que acelerou o óbito dos classificados tradicionais nos jornais – outra oportunidade que passou despercebida a um sector que devia ter estado atento às oportunidades verticais do seu negocio. Não é de forma alguma linear que a convergência iria interromper o ciclo de decrescimento, quer no número de leitores, quer no valor de receitas vindas dos anunciantes, mas o mesmo enfatiza as prolongadas dificuldades que os meios tradicionais viveram aquando da sua tentativa de evolução e ajustamento ao novo mundo digital.

O facto de os meios tradicionais não conseguirem alavancar, em termos gerais, o talento que detêm nas suas organizações para descobrir novos territórios e oportunidades verticais em torno de perder esses activos, demonstra a sua inadequacidade em compreender o ambiente em que se encontram. Em contrasto, a SixApart.com anunciou a compra do site de micro-blogging, Pownce.com, no dia 1 de Dezembro 2008 por um valor não revelado, pondo assim duas semanas depois fim ao site. Porque? Simples, um investimento numa equipa vencedora capaz de alcançar resultados diferentes num ambiente propício ao mesmo.

O futuro de media on-line assenta na aplicação dos meios mais adequados à mensagem que se quer passar. Os silos artificias, fazem pouco sentido num mundo que se rege pela oportunidade de fazer escolhas inteligentes em torno de uma persistência na separação de meios como se fosse necessário ser um ou outro e não uma convergência dos mesmos. Criadores de conteúdo inteligente irão tirar partido da convergência para oferecer ao consumidor uma mais poderosa e rica experiência informativa.

 

 

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