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Facebook E Bancos

Eu acho que falo por muitos – tenho uma relação Love/Hate com os bancos. E agora estou a sofrer o mesmo com o Facebook. A pergunta que coloco é, não poderia eu ter uma relação Love/Love ou mesmo só Like?

Quanto mais penso sobre os bancos e Facebook, mais vejo uma inquietante semelhança entre ambos, inquietante pois supostamente tenho opções e o poder de escolha – mas será que tenho mesmo? Vejamos:

Termos & Condições

Para todos os efeitos, quando queremos algo, raramente  decidimos não o ter quando nos apresentam os termos e condições associados. No caso de um banco, desde a abertura de uma conta a um empréstimo, tudo vem acompanhado por uma longa e incompreensível lista de condições. Na realidade para quem o lê com atenção fica a perceber uma coisa – estamos abdicar dos mais básicos direitos que devíamos sempre reter. Facebook não é diferente. Para os poucos que já leram os termos & condições, vão perceber que afinal Facebook pode (e provavelmente) faz tudo o que quer com a nossa informação. O que aconteceu ao contrato de mútuo agrade? O win-win?

Em muitos casos, é essa a informação que devíamos proteger a todo o custo – digo isto para todos que colocam fotografias dos seus filhos, atividades com outros (sem o seu consentimento), tags em fotografias para efeitos de autopromoção e o adicionar amigos para um grupo (aqueles em que lhe depositaram a sua confiança) independentemente de pedirem ou não autorização – afinal é muito trabalho criar um grupo e esperar que o conteúdo que coloca seja suficientemente convincente para querem fazer parte do seu grupo?

Um aparte, não peçam “likes” a amigos e conhecidos – seria o equivalente de estar num jantar e pedir a um amigo ou conhecido para declarar amor por si – ridículo e coloca ambas as pessoas numa situação desnecessária.

Quando Necessitar De Ajuda, Pode Esperar Sentado

Quando me perguntam qual a minha relação com o meu banco, penso sempre nas alturas em que necessitei de ajuda. Poucas foram aquelas que cumpriram. Não devemos confundir a “aposta” numa empresa onde se paga juros e custos pois isso não considero ajuda – é uma transação comercial. Ajuda não é cobrada.

No Facebook, quando tiver algum problema, se alguém tiver a utilizar a sua marca ou se por algum motivo desativarem a sua conta, bem pode esperar pela resolução. Pode esperar ainda mais tempo por um pedido de desculpa – nunca irá chegar. Afinal, o serviço é gratuito – o que estaria à espera? Eu? Estaria à espera de muito mais. O serviço não é gratuito. Para eu ter retorno no Facebook, tenho que partilhar, comentar e estar suficientemente ativo para que o seu Edgerank (algoritmo que escolhe por nós a relevância de tudo) me dê a devida atenção.

Lealdade Ou Dependência

Muitas vezes as pessoas fazem confusão entre lealdade e dependência, especialmente no que concerne a utilizadores/clientes que utilizam o serviço há mais de x tempo.

A maioria de clientes de bancos dividem-se em dois tipos – aqueles que necessitam de dinheiro e aqueles que o banco necessita do dinheiro deles. Para aqueles que contratam empréstimos, cartões de crédito etc, é criada uma dependência nos bancos que normalmente só termina quando nada já se deve aos mesmos, ou nos piores casos quando existe incumprimento (do cliente – incumprimento do banco não está contemplado).

Facebook, por outro lado, criou uma dependência das pessoas e das marcas no seu ecossistema. Tanto que já há algum tempo, Facebook altera funcionalidades e até o próprio perfil sem qualquer interesse no que o utilizador quer ou não. Na realidade a maioria reclama mas poucos vão mudar – estão dependentes no Facebook através de todos os seus assets já confiados à rede e aos seus utilizadores. Com cada vídeo, post e amizade criada, mais difícil torna-se o divórcio da maior rede social.

Para que se mantenha livre de tudo isto, sé lhe resta duas coisas – não utilizar dinheiro que não é seu e não centralizar a sua vida online no Facebook – provavelmente mais fácil dizer que fazer.

Confiança & Transparência

Quando se ouve alguém dizer “confia em mim”, algo dispara no nosso cérebro que imediatamente cria a desconfiança. De igual forma, o respeito é algo, que como a confiança, é demonstrado e não exigido ou pedido. Nesta altura em que os estudos indicam a tremenda falta de confiança nos bancos, Facebook não é diferente. Já devíamos ter todos percebido que Facebook é uma empresa, e como os bancos, interessa-se somente com uma coisa – bottom line – lucros. Tudo o resto é uma mera distração – fuzzy marketing aplicado para nos seduzir e confortar. Mark Zuckerberg e a sua missão de “frictionless sharing” (partilha sem fricção) só demonstra uma coisa, partilha involuntária de tudo que fazemos online.

Já o Eric Schmidt, ex-CEO do Google, dizia a um jornalista “vão ter que confiar em nós”. Sério? Como? Porquê? E o que aconteceu à celebre frase da empresa “do no evil”? Mais uma vez, todas as mais recentes ações só tem demonstrado uma coisa – a nossa utilização de todos estes serviços gratuitos tem um preço – a nossa privacidade e abdicação do controlo.

Controlo

Se há uma coisa que vamos perdendo com a nossa conta de Facebook ou bancária é o controlo. Controlo dá-nos a possibilidade de exercer o nosso direito de escolha. Com cada empréstimo, com cada fotografia que publicamos, com cada cartão de crédito e com cada pessoa com quem interagimos online, perdemos o controlo.

Já é demasiado tarde para a maioria de nós, mas por menos devemos estar cientes de uma coisa: seja uma conta bancária ou uma conta no Facebook, podemos começar a diminuir a nossa dependência para que no dia em que algo aconteça que ponha em questão os nossos interesses, estejamos assim aptos a dizer – não, basta.

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