in Opinião

Vida é feita das escolhas

Quando decidi deixar a bolsa de Londres e vir para Portugal para iniciar a minha vida como empreendedor, não o fiz para ficar rico. Foi uma paixão tão intensa que ninguém me conseguiu convencer o contrario.

Durante os 12 anos que tive o Paradise Garage, Paradise Productions, IGMarketing, NML Management e Out There Records, aprendi muito. Mas a maior lição de todas foi, que quando trabalhava por objetivos financeiros, falhava sempre. Mas quando me apaixonava, os resultados eram muito diferentes. Decidi, após estes 12 anos de vender tudo e focar-me na minha nova paixão que era social media.

Mas algo estranho aconteceu, três meses depois, recebemos a licença para iniciar obra no Espaço Chiado – para o projeto Silk. É que desde que tínhamos dado inicio ao processo até este dia, já lá iam 6 anos – sim, 6 anos. Já tínhamos desistido inúmeras vezes.

Neste momento partilho o meu tempo entre o Silk e Tudo Mudou, o ultimo que me permite ler, ouvir, aprender, refletir e espero eu, partilhar algumas das minhas ideias e experiências. Não quero ter razão, mas quero pertencer a uma comunidade que pensa, descorda, argumenta, respeita e evolui.

Quando li a troca de emails entre uma banda e uma produtora publicado para todos verem e comentarem, automaticamente escrevi sobre o caso com base nas diversas sensações que o mesmo suscitou. Mas a mais importante delas todas só iria chegar dias mais tarde.

Quando recebi um email de um potencial cliente do Silk a pedir como podia ter acesso ao clube, respondi como o faço sempre explicando os procedimentos (parece complicado mas não é) e enviei, achando que ficaríamos por ai.

Mas ele respondeu explicando que tinha muito dinheiro para gastar e se seria mesmo assim como tinha indicado. Mas desta vez incluiu uma importante pergunta, algo que poderia ter logo feito no inicio dado que já sabia a resposta. Indiferente às pretensões de cada um em gastar ou não uma fortuna, respondi à sua questão que o Silk servia um público mais velho – ele afinal tinha 17 anos.

A minha resposta simpática incluía as razões pelo qual o Silk tinha optado por tal estratégia. Mas incluí o meu numero de telemóvel direto para que ele pudesse ligar e explicar exatamente o que pretendia.

Escolheu não ligar optando por explicar por email que nunca tinha sido “barrado” e certamente não era agora que iria ser. Esta resposta irritou-me profundamente – arrogante, mal encarado e afinal depois de tudo que tinha feito ainda tinha a audácia de me responder desta forma.

Comecei a escreve a minha resposta, teclando como se tivesse a utilizar uma maquina de escrever antiga, cada vez mais irritado e indignado. Mas de repente parei e veio-me à cabeça o que tinha acontecido com a Everything Is New. Imaginei durante uns poucos segundos a publicação da troca dos nossos emails, ou a parte que mais interessasse – a resposta de um “dono da noite” a um pedido de um humilde adolescente que só queria impressionar uma amiga sua. Fuck!

Apaguei e decidi voltar ao assunto mais tarde.

O que se seguiu foi algo totalmente inesperado. Voltei aos meus tempos de adolescência quando as nossa paixões eram tão intensas que parecia que mais nada importava. Comecei a imaginar um rapaz que decidiu pedir o impensável – acesso ao local “mais restrito e exclusivo” que sabia ele, não acomodar clientes da sua idade. De forma ingénua, que infelizmente só a adolescência nos permite, tinha pedido algo que muito irrealizável que pudesse ser, iria certamente ser a cereja no bolo.

Toda a correspondência entre nós parecia agora diferente – o contexto permitia que eu compreendesse o que estava em jogo e o quão fácil seria para mim fazer alguém feliz.

E assim foi. Escrevi um email a confirmar a reserva e a desejar-lhe uma ótima noite. Curiosamente senti-me muito diferente – o rancor tornou-se numa sensação humanitária – exagerado eu si, mas fez-me sorrir.

E é assim que eu sustento a minha ideia que o que tem acontecido nas redes sociais, o que assistimos no dia-a-dia no mundo de negócios e a situação em que nós todos nos encontramos, tem a ver com a cultura e quem a cria de cima para baixo.

A vida é feita de escolhas e todos nós temos a escolha de ir pela esquerda ou pela direita. Neste caso, felizmente escolhi não ser o gestor mas sim o humano – a pessoa que verdadeiramente quero ser. Para mim, é irrelevante o facto que apaguei o primeiro email quando pensei nas consequências para mim e para a marca que ajudo a gerir. O importante é que no fim cheguei à escolha certa e aprendi que até sabe bem.

Hoje em dia digo com orgulho que uma vantagem da idade é a possibilidade que temos de beber de toda a nossa experiência. Não existem más experiências, somente alturas em que o nosso sofrimento nos tornou irracional, diria humano. Mas são estas alturas que nos definem e que contribuem para o resultado de tudo que fazemos – the good, the bad and the ugly.

Quando reflito, com uma saudável dose de humilde, sobre os desentendimentos, desacatos, afrontes e até quebras de relações, chego inadvertidamente à conclusão que contribui para tal situação – se tinha ou não razão parece agora secundário.

E de pensar que se alguma vez publicassem alguns dos emails que escrevi no passado – um ato de raiva – certamente me sentia embaraçado. Mas sei também que não sou o único – somos muitos, demasiados.

Com isto, só posso concluir que no contexto do que se tem passado com a Ensitel, EDP, Everything Is New e inúmeros outros casos, todos os problemas e todo o nosso insucesso vem de uma única fonte – a cultura empresarial errada. Quando nos focamos nos resultados, assumimos que todos são incompetentes e que vivemos numa aldeia chamada Portugal, desviamos atenção da única razão.

Ao enfrentarmos os nossos demônios, poderemos finalmente iniciar o caminho diferente. A escolha é assim, nossa. Sua. Minha.

Disclaimer: Sou um dos dois sócio-gerentes da Blue Thing, proprietária do Silk Club. As opiniões deste artigo são somente minhas e não escrevo em representação do Silk nem da sua gerência.  

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14 Comments

  1. O “problema” não é o “problema”. O “problema” é estado emocional em que abordo o contexto onde está o “problema”! Obrigado Nuno, por mostrares o quão facil podemos mudar o nosso estado e aceder a novas formas de lidar com uma situação…

  2. Nuno, este é talvez dos melhores artigos que li aqui no Tudomudou. Muitos parabéns e obrigado por nos demonstrares que o mundo não é monocromático… Temos sempre várias opção e que, por vezes, podem ser tão ou mais válida que a escolhida! A tua experiência “contagia-me” – obrigado por partilhares!

  3. Nuno, este é talvez dos melhores artigos que li aqui no Tudomudou. Muitos parabéns e obrigado por nos demonstrares que o mundo não é monocromático… Temos sempre várias opção e que, por vezes, podem ser tão ou mais válida que a escolhida! A tua experiência “contagia-me” – obrigado por partilhares!