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Android A Sofrer

Correndo o risco de iniciar mais uma discussão entre Apple e Android fan boys, acho importante analisarmos o fenómeno que é a Android. É que em qualquer outras circunstâncias, Android poderia ter tido ainda mais sucesso. Passo a explicar.

Quando Google lançou o seu novo sistema operativo Android para que fabricantes de telemóveis pudessem abraçá-lo, seria difícil imaginar alguma empresa com o technical know-how da Google, criar um ecossistema tão confuso e disfuncional.

Já abordamos a questão do suposto sistema aberto não ser assim tão aberto, bem como o problema com as atualizações levarem tanto tempo a chegarem ao utilizador – um eufemismo no mínimo. É que muitos ainda esperam a versão Gingerbread numa altura em que Ice Cream Sandwich torna a sua anterior versão quase irrelevante.

Não é que Android é mau, pelo contrario. O problema reside no ecossistema que Google ajudou a promover, onde todos deviam remar para o mesmo lado mas escolhem concorrer e consequentemente complicar o panorama atual para o consumidor.

O novo Galaxy Nexus é um exemplo, não da falha de Android, mas sim de quem fabrica o aparelho. Em primeiro lugar, o tamanho do aparelho, faz parecer com que os fabricantes estejam numa autentica corrida para ver quem consegue construir o maior e mais inconveniente smartphone. Chegou ao ponto onde a linha entre smartphone e tablet é deveras ténue.

Shawn Blanc, responsável pelo seu members only podcast, explica melhor:

This gives the Galaxy Nexus an aura that makes me wonder if it’s supposed to be a tablet that makes phone calls or a phone that you need two hands to use. I realize that’s a goofy and exaggerated statement, but I exaggerate it to make a point I am serious about: the phone is simply too big.

Mas o problema dos fabricantes não fica pelo tamanho. Na continua corrida para superar a Apple, em vez de embarcarem no seu próprio rumo de inovação, os fabricantes abraçam tecnologias novas sem saber muito bem o que fazer com eles, sacrificando o performance dos aparelhos, enquanto baralham os clientes e os seus próprios colaboradores bem como quem tem a árdua tarefa dos explicar e vender ao consumidor, cada vez mais exigente e informado.

A novidade de 4G é um exemplo de algo que se tornou confuso e ilusório, lançado prematuramente para a desgraça de quem aposta na compra de tais aparelhos.

As operadoras móveis estão a ser alvos de critica sobre a forma leviana que utilizam o termo 4G, que deveria indicar pertencer à “quarta geração” de protocolos de wireless e dados, insinuando obviamente um aumento substancial em velocidade e confiança, da já antiga 3G (“terceira geração”). Poderá encontrar informações e requisitos ITU para 4G bem como outros dados técnicos no site da Wikipedia.

Ao ler a explicação, não se percebe porquê tanta complicação. Só existem dois protocolos na tecnologia existente hoje, LTE e WiMAX. Todos os outros que tentam passar pelo mesmo, HSPA+, HSPDA, entre outros, só conseguem demonstrar melhorias em laboratório, falhando na sua promessa no mundo em que vivemos, e nos interessa. Assim podemos descartar todo o marketing de 4G que não seja LTE ou WiMAX.

Mas o grande problema com 4G, ou seja o protocolo LTE, é que para conseguir as fenomenais velocidades, iríamos necessitar de outros aparelhos e não aqueles que estão presentemente à venda ao público. A bateria, por exemplo, é incapaz de alimentar as necessidades de 4G, com Blanc a descrever novamente a sua experiência, uma referida por inúmeras outras pessoas.

At 11:30 AM I started out and the battery of the Nexus was at 43-percent. After 25 minutes the battery had drained down to 33-percent even though it was plugged into a car charger.

Mas será que estamos a regressar ao passado onde aceitávamos cinco passos atrás para conseguir algo que nos convenceram ser a nova tendência? Se a bateria ainda é um problema para muitos, porque lançar uma tecnologia mal ajustada e que retira ainda mais autonomia a algo que ainda deixa muito a desejar.

De salientar que quanto maior o tamanho de qualquer ecrã, mais drena a já ineficaz bateria.

LTE é de facto o futuro, mas não devia ser permitido ser utilizado como marketing para o presente, criando falsas expectativas perante a confusão já abundante no mercado mobile.

Estes são somente dois dos problemas sistemáticos que praga os smartphones/mini-tablets que utilizam Android, fazendo com que o consumidor que desconhece os prós e contras do sistema operativo, acha o aparelho e seu sistema, pobre.

Em vez de criar uma menor gama de produtos para o utilizador que maximizem a experiência de cada tipo de utilizador, os fabricantes embarcaram numa estratégia reminiscente ao que ajudou à queda da industria discográfica – atirar para todos os lados na esperança que alguns peguem e vendam tanto que possam justificar todos os outros que vão desaparecendo do mercado sem um enterro com dignidade.

Nem os diferentes nomes, características e tamanhos podem disfarçar o facto que todos utilizam o mesmo sistema operativo. Mas se fosse só esse o problema, a escolha do consumidor seria bem mais fácil. O problema depois reside na necessidade que cada operadora móvel sente em alterar e adaptar Android à sua marca e desejo de controlar o que o seu cliente pode ou não fazer.

Só resta à Google tentar resolver todas as pequenas lacunas criadas para que tenta estandardizar o sistema operativo para que possa enviar as tão desejadas atualizações para cada um. Será que o cliente sabe que o seu telemóvel com Android poderá nunca ver uma única atualização?

Não é que a promessa do Galaxy Nexus não seja desejada por muitos, mas o produto final fica aquém do que se esperava das maiores marcas de tecnologia do mundo. O que podemos ler muitas vezes nas criticas favoráveis a estes aparelhos, faz-nos regressar ao passado quando éramos obrigados a perder um funcionalidade para conseguir alcançar algo que nem necessitamos. O que verificamos na página oficial é a total ausência da autonomia de bateria, por exemplo,  provavelmente para dar espaço a todas as novidades que não necessitamos, tal como face unlock.

O que necessitamos, na realidade, é um aparelho ciente dos seus limites que faz tudo que deve fazer o mais próxima possível da perfeição. O mercado convoluto de aparelhos com Android cria inúmeros problemas para o consumidor, provavelmente até levando alguns a optarem pela concorrente, mais caro, da Apple.

Enquanto o sistema operativo Android está a melhorar a olhos vistos, os aparelhos que o adoptam, tornam o processo de compra um incógnito. O Galaxy Nexus é exemplificativo no que o mercado de aparelhos Android se tornou. Mas a Amazon conseguiu provar o que fazer sem que tivesse que concorrer com o iPhone, iPad ou o iOS – um retalhista online com o seu enorme sucesso Kindle Fire, que vende 1 milhão de aparelhos por semana.

O problema é tão simples como complexo. Os fabricantes estão realisticamente a competir um com o outro, tendo os seus aparelhos à venda lado a lado, enquanto supostamente pertencem a um único ecossistema. Não é por acaso que a Google comprou a Motorola e Eric Schmidt anunciou uma tablet Google para 2012. Infelizmente, se analisarmos o sucesso dos telemóveis Google, pouco irá mudar. Pelo contrario. Pena, pois o sistema Android é um verdadeiro concorrente ao iOS capaz até de o superar se vivesse numa outra dimensão.

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