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mHealth

No início deste mês teve lugar um dos encontros mais recentes mas mesmo assim mais importantes nas áreas da Saúde e Tecnologia – o mHealth Summit, nas proximidades de Washington, D.C., com a presença de cerca de 3,600 delegados de 46 estados e 48 países (eram 2,400 no ano passado).

Estiveram presentes os mais importantes intervenientes em cada segmento de mercado imaginável, promovendo as capacidades e vantagens das Tecnologias Móveis em Saúde em melhorar a qualidade dos cuidados de saúde, centralizar a atenção no paciente e promover uma efetiva redução de custos na saúde.

Mas uma outra constatação tornou-se evidente: se as tecnologias de comunicação móveis permitiram revolucionar praticamente todas as indústrias nos US, a indústria da Saúde parecia ter ficado para trás.

A Secretária do Department of Human Health Services, Kathleen Sebelius – uma das Keynote speakers – afirmou “virtualmente cada Americano tem um telemóvel… e todos os anos esses telemóveis trazem mais funcionalidades e poder computacional. Á medida que estes telemóveis se tornam mais poderosos começam a ser as ferramentas primárias para realizar tudo, desde obter direções ou decidir onde ir comer. E cada vez mais estas novas funcionalidades incluem utilizar os nossos telemóveis para seguir, gerir e melhorar a nossa saúde”

Esta promessa da Mobile Health não é necessariamente recente.

Líderes e visionários na área da Saúde vêm defendendo á vários anos o aumento da utilização de ferramentas móveis para auxiliar a melhorar os cuidados de saúde preventivos, a redução de visitas médicas desnecessárias, limitar o crescimento dos custos com a saúde e dar maior poder aos pacientes em controlar os seus dados médicos e tomar decisões.

A Secretária Sebelius acrescentou durante a sua comunicação: “Durante as últimas décadas assistimos às tecnologias de informação melhorarem a experiência do utilizador em quase todos os aspetos práticos da nossa vida. Passamos de esperar pela abertura do balcão de um banco para as ATM 24h ou o pagamento de contas on-line; contudo os cuidados de saúde mantiveram-se teimosamente agarrados aos seus armários e ficheiros em dossiers”. Nada mais certo, não é?

Por isso os empreendedores e fornecedores de tecnologia estão de olhos postos no mercado da mHealth, vendo-o como um dos mais ricos ao nível de potencial atual e futuro.

E foi a mesma Sebelius que, apontando para as cerca de 12,000 Apps ligadas á Saúde no iTunes store, salientou alguns exemplos como o iTriage, que permite localizar um centro de cuidados médicos específico ou não tão facilmente como um restaurante étnico ou a Pillbox, que auxilia utilizadores individuais a identificar remédios sem rótulos.

Um exemplo prático de como ferramentas móveis podem auxiliar os prestadores de cuidados de saúde foi apresentado por Eric Topol – Vice Chair do West Wireless Health Institute e cardiologista no prestigiado (e fantasticamente localizado para quem lá foi) Scripps Memorial Hospital em La Jolla, Califórnia. Topol teve de se socorrer ao seu iPhone para diagnosticar um paciente que estava a ter um ataque cardíaco num voo, dando-lhe em tempo real um ecocardiograma (ver artigo no TudoMudou sobre esta App). Mais tarde usou um dispositivo móvel e uma loção de um quarto de hotel para realizar um ultrassom. Acrescentou ainda que desde que dispõe de tecnologia de ultrassons móvel já não utiliza um estetoscópio á anos.

O Director de Worldwide Health Information Technology na Intel, Rick Cnossen, acredita que nos próximos 10 anos cerca de cerca de 50% dos cuidados de saúde poderão ser fornecidos pelas “brickless clinic” seja em casa, local de trabalho ou mesmo a conduzir.

Cnossen acrescentou o que já sabemos: a tecnologia necessária já existe para tornar possível tudo isto: ferramentas móveis, Telehealth, PHR (Personal Health Records) e redes sociais. “Temos a tecnologia… já é tempo para seguirmos em frente utilizando-a” acrescentou Cnossen que de seguida deu a mais inspirada perspetiva da conferência: “No final do dia mHealth não é acerca de smarphones, gadgets ou até apps. É acerca de liderar uma transformação de um modo holístico; mHealth é acerca da distribuição de cuidados para além das paredes das clínicas e hospitais e potenciar novos relacionamentos baseados em partilha e gestão de informação entre pacientes, médicos e todos os restantes prestadores de cuidados de saúde de um modo que leve a melhor decisões e comportamentos”

Ultrapassar as barreiras que nos separam da mHealth

Fica a pergunta: se a tecnologia já existe e os líderes quer do sector público quer do privado entendem as necessidades existentes para suprir com esta tecnologia, porque é que o progresso em Mobile Health tem sido tão penosamente lento?

Rick Cnossen acrescenta, “o desafio não é um problema tecnológico, é um problema de modelo de negócio e fluxo de trabalho. Os médicos são geralmente resistentes á mudança, logo a estratégia será introduzir a tecnologia existente no seu modelo de atividade e não força-la de outra maneira.

Um problema que pode limitar a adoção da Mobile Health segundo Krishnan Ganapathy, Presidente da Apollo Telemedicine Networking Foundation na Índia, vem do facto que os pacientes não irão adotar facilmente e ubiquamente a Mobile Health se os seus prestadores de cuidados de saúde não estiverem a utilizar estas ferramentas. Para mais os prestadores de serviços de saúde primários não têm nenhum incentivo na sua utilização pelo modelo “fee-for-service”. De facto, o uso da Mobile Health Technology poderá afetar a “bottom line” do próprio médico se doenças crónicas forem melhor geridas e as visitas de pacientes reduzidas ou evitadas no seu todo.

Uma visão antagónica tem Joseph Kvedar – fundador e  Diretor do Center for Connected Health at Partners HealthCare –afirmando que talvez seja altura de pensar que o médico não é o centro do universo da gestão da nossa saúde. Os pacientes podem incentivar e comandar o desenvolvimento dos cuidados de saúde pela mHealth. Kvedar acrescenta que a Mobile Health pode realmente “empower” os pacientes e consumidores de modo a que tomem nas suas mãos os cuidados a ter consigo próprios; “os pacientes são o nosso maior recurso ainda inexplorado”

Donna Ramos-Johnson – CTO na District of Columbia Primary Care Association – afirma que o desafio é fazer com que as ferramentas de Mobile Health sejam relevantes, acessíveis e culturalmente adequadas e sensíveis para os pacientes que podem obter os maiores benefícios desta tecnologia. Acrescentou que os médicos necessitam de ser incentivados a monitorizar a saúde dos seus pacientes remotamente e os pacientes necessitam de ser incentivados a monitorizar eles próprios a sua saúde.

Um exemplo para ser seguido em Portugal é finalmente apresentado pela Secretária Sebelius ” não existe força mais poderosa para inovar que os empresários americanos mas ainda assim o Governo Federal pode atuar de um modo limitado mas crucial como catalisador, começando por colocar á disposição dos empresários a vasta quantidade de informação de dados de saúde, médicos e outros que o nosso Departamento reúne”, adicionado “deste modo o que fizemos foi disponibilizar os dados, colocar os mesmos numa clearing house central designada healthdata.gov e comunicar aos programadores – go for it.”

Sebelius referiu ainda que o Governo Federal está a trabalhar diretamente em vários projectos em Mobile Health tais como Text4Baby e SmokeFreeTXT. Como complemento o Governo, conjuntamente com grupos do sector privado tem realizado concursos desafiando programadores a criarem apps inovadoras que foquem na resolução de algumas das necessidades em cuidados de saúde dos USA

As palavras finais são representativas da importância deste tema: ” Quando falamos de Mobile Health falamos em lançar o maior avanço tecnológico do nosso tempo e utiliza-lo para defrontar um dos maiores desafios da nossa vida. E se temos ainda um caminho a percorrer para lá chegar podemos já imaginar um futuro admirável em que o controlo sobre a nossa saúde estará sempre ao alcance da nossa mão.”

Não podíamos estar mais de acordo.

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