in Facebook

Mark Zuckerberg e O Futuro

Se já parecia ridícula uma empresa ser avaliada em 25 vezes o seu volume de negócios, agora chega-nos a noticia que após o ultimo leilão de ações no mercado secundário, a empresa está avaliada em 35 vezes o seu volume de negócios. Parece-me a altura certa de darmos um passo fora da bolha antes que algo nos caia em cima.

O que me preocupa mais é que poucos, para dizer ninguém, parece estar a falar nos riscos inerentes a este tipo de hype. Provavelmente sou eu que estou invejoso do sucesso de Facebook e quero que aquilo rebente na cara de Zuckerberg. Ou poderá haver mesmo razão para termos cuidado com o que se está a passar? Vejamos:

  1. O mais fácil é analisar os números. Não faz sentido uma empresa como Facebook, que ainda não conseguiu provar que o seu modelo de negócios funciona a medio ou longo prazo, ter uma avaliação tão disparatada.
  2. Quem está a ganhar com estas avaliações e jogadas no mercado secundário? Facebook e os seus parceiros, cuidadosamente escolhidos, não pela sua capacidade de analise e rigor, mas sim pela sua “arte” de inflacionar. Todos os passos que foram tomados, tiveram um único interesse – aumentar a especulação até ao limite. O alvo? Um IPO que rebente com tudo. E depois? Aqueles que fizerem short selling, são os poucos que mais irão lucrar. Nenhum deles tem interesse no futuro de Facebook nem da “visão” de Zuckerberg. In, out, reforma, thank you very much.
    Eles são muito bons. Já nos esquecemos o que conseguiram fazer com os mercados financeiros? Porque estamos nós numa recessão continua sem fim, ainda sem perceber bem o que necessitamos de alterar para mudar de rumo?
  3. Facebook é um serviço, ou produto, que vive unicamente da vontade do utilizador. Facebook não controla nenhum ponto que tenha influência na utilização da rede social. O serviço é inteiramente conduzido pelo Goodwill da comunidade. Que pode, e vai, mudar no futuro. O problema é saber quando e como. Mas o que aprendemos é que cada vez mais, tudo muda à velocidade da Web – altamente imprevisível e os mercados financeiros odeiam o imprevisto, algo que ligam diretamente ao risco. E quando há risco, decisões são tomadas e os danos colaterais incalculáveis quando se opera a este nível.
  4. Existe uma dependência mútua entre a Zynga e Facebook algo que cria uma relação de enorme instabilidade. Afinal quem ajuda quem? Já não interessa o passado, onde Zynga sem a plataforma Facebook, não teria chegado onde está. Isso é o passado. O único interesse agora é o presente e mais importante o futuro, e Facebook criou um monstro que neste momento corresponde a 12% das receitas de Facebook. Tal é a importância desta relação, que Facebook teve que atualizar a documentação para o IPO refletindo este risco, curiosamente ainda referido como oportunidade de negocio.
  5. Facebook e Google podem estar a lutar pela quota de publicidade online mas os seus modelos de negocio são muito diferentes, bem como a sua exposição no mercado. Enquanto Facebook cresce perante as suas quatro paredes, Google opera na Web. Google vende publicidade na Web, Facebook vende publicidade no seu quintal, que claro é neste momento o maior quintal do mundo. Mas o que acontece quando todo este terreno começar a perder habitantes? No inicio não se nota, depois parece não ser critico – há sempre uma razão. E sem saber como, os mercados viram-se para a próxima grande promessa, seja ela na China, ou através de um modelo diferente – uma evolução do conceito que nos hoje em dia chamamos uma rede social.
  6. Se por um lado Facebook tem sempre levado a questão de privacidade ao limite, recuando o suficiente para fugir ao castigo, o futuro já não lhe confere esse luxo. O pedido de desculpa do Zucky e o seu Beast já não vai bastar. Nem vai chegar a tempo. Quando ele acordar e decidir redigir o seu pedido de desculpas da forma mais transparente, autêntica e humilde possível, já os mercados financeiros lhe comeram uma fatia grande do seu império. Império esse que vai passar a ser julgado não pelo numero de utilizadores, ativos ou inativos ou semi-tivos,  mas sim pelo seu valor na bolsa. E Zuckerberg e a sua tropa de seguidores não estão preparados para a crueldade e irracionalidade (para eles) dos mercados financeiros.
  7. Note a diferença entre um LinkedIn com o seu valor acrescido, crescimento orgânico bem como a sua própria razão de existência. A maioria das pessoas utiliza LinkedIn como uma ferramenta que lhe permite resolver vários problemas ou lacunas. Facebook não resolve nenhum problema nosso, pelo contrário, para muitos cria problemas – dependência, relações destruídas e reputações manchadas. Para uma minoria, Facebook até preenche uma lacuna que era de manter contacto com o nosso passado – mas os serviços de nicho vão resolver esse problema nosso – a terceira idade que quer manter contacto com os seus antigos colegas não quer estar no meio do circo, os militares que querem manter contacto e partilhar as suas experiências e dificuldades de voltar ao mundo que já não reconhecem, não querem levar com liberalistas ou defensores da paz. Professores já não podem ter alunos como amigos, os seus filhos já fogem de ser seu “amigo” e a “amizade” do seu patrão é uma autentica oferta envenenada.
  8. O tamanho e importância de Facebook começou já atrair (e vai piorar) o escrutínio das agências governamentais e defensores de praticamente todos os possíveis direitos existentes que aparentemente necessitam de se defender de Facebook. Não é por acaso que Facebook investiu 5 vezes mais em lobbying (tentativas de influenciar oficiais dos governos) em 2011 do que no ano anterior. Tudo têm um tipping point e o perigoso caminho de lobbying acaba sempre mal. Enquanto não existe pressão, oficiais estão mais que contentes de segurar na bandeira de quem lhes paga uma pequena fortuna. Mas no fim, os votos é que mandam e quem pagou fica sempre com as mãos abanar a lidar com o rescaldo. Mais uma vez, os mercados financeiros reagem como um relâmpago.

Seja como for, uma coisa é garantida e os media acabaram por se entusiasmar nesta aventura e no sensacionalismo. Afinal Facebook parece ter sido inventado por Hollywood.

Um nerd pobre, ignorado pelo mundo, rouba a ideia e engana os gémeos que aparentemente têm tudo – bonitos, atléticos, com as suas lindas namoradas, autênticos trofeus, os pais influentes, um futuro garantido e uma ideia, uma brincadeira, que quase de certeza nunca teria sobrevivido após terem acabado a universidade. Segue-se um blockbuster que demonstra os bastidores de uma empresa fora de controlo, mas que todos invejam. As noites com os amigos, a casa que destruíam, a cerveja que nunca acabava, o Robin Hood que aparece para ajudar na luta contra os investidores – irónico que são esses mesmos que Sean Parker supostamente diz a Zuckerberg para os mandar à merda vestido ainda de pijama, um desprezo total – as discotecas, a traição, as amizades perdidas, as miúdas que agora querem, um caso de tribunal que independentemente de terem que pagar uma compensação, acabaram por ganhar. E agora um IPO valorizando a empresa de forma quase pornográfica. Mark Zuckerberg chegou, almoçou com Barack Obama e recebeu muitos concelhos de Steve Jobs. Mas…

Mas na realidade só falta o fim. E todos nós já vimos este filme suficientes vezes para saber como vai acabar. O que vale é que nós saímos do cinema e voltamos à nossa aparentemente banal vida. O resto my friends, is history. Poor Zucky.

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