in Gestão & Marketing

Formação

No meu último artigo, abordei algumas noções básicas relativas à área da Gestão, quer para o Empreendedor que está a começar um projecto (a sua primeira empresa, por exemplo) quer para o gestor já experiente, que está a orientar uma organização. Claramente, a estratégia e o planeamento, são essenciais, de modo a orientar recursos e dirigir esforços, de um modo focado, para obter a máxima eficácia e eficiência dos recursos.

Mas não é o único trunfo de que um empresário se deve munir. Neste artigo, pretendo focar-me na questão da (in)formação. No século XXI, século de aceleração extrema, em que tudo muda ao mesmo tempo, em vários planos sobrepostos, torna-se cada vez mais difícil acompanhar todos os fluxos, todas as variáveis, todas as interferências que vão surgindo de todo o lado. Por sua vez, surgem, a cada momento, novas e surpreendentes descobertas, o conhecimento avança e novas áreas de estudo e interesse desabrocham. E, apesar de tudo o que aqui está a ser dito, não passamos o lugar-comum, sequer, ao enunciar este contexto.

Porém, a verdade é que esta(s) realidade (s) existe(m). E interferem no desempenho das organizações. Assim sendo, este ponto é extremamente pertinente para o campo da Gestão e da Estratégia, pois, como vimos, estes implicam levar em conta o contexto – o que quer que ele signifique, em cada caso.

O contexto de uma dada entidade pode ser decomposto em muitos segmentos, em muitos planos (cultural, social, tecnológico, político, económico, científico, etc…) mas, independentemente do seu tipo, estará sempre em constante metamorfose. Cada nova área que surge é um terreno fértil e inexplorado, seja ele fonte de oportunidades ou de ameaças – e só vai conseguir transformar as segundas nas primeiras, se as conhecer, isto é, se recolher toda a informação pertinente que conseguir; cada nova técnica encontrada pode servir os objectivos ao seu projecto, cada novo paradigma é uma nova base para novas experiências, discussões e descobertas e assim sucessivamente. Conhecimento gera conhecimento.

Desde os finais da década de 80 e muito principalmente nos anos 90, eu recordo-me perfeitamente que, por influência das directrizes Europeias – e muito bem – de repente, em Portugal, começou a falar-se da questão da Formação como uma ferramenta fundamental para uma estratégia competitiva. Por comparação com o que se passava no mundo, particularmente na CEE, percebemos que tínhamos quadros pouco formados. Numa Europa que se pretendia de livre circulação de matérias-primas, moeda, serviços e pessoas, de que serviria isso, da possibilidade de mobilidade facilitada, quando as nossas pessoas não conseguiam integrar-se em mercados laborais mais evoluídos e exigentes? Estamos a abrir-nos, no fundo, para a entrada, apenas, então. Não para a saída.

Foi aí que se percebeu, de forma bastante óbvia, que a formação estaria altamente ligada à competitividade. E foi desde então que se abriu a discussão que culminou com a adopção de medidas, como a abertura de centros de formação, a (re)qualificação da mão-de-obra, o reforço dos programas escolares (dotando-os de metodologias mais actuais, com mais recursos, a abertura de cursos técnicos),  a reorientação dos cursos superiores para incluírem componentes mais práticas, para contrabalançar as teorias e dotar os estudantes de um superior poder de integração no mercado de trabalho (que é para ele que os estudantes se preparam). Se isso foi bem ou mal feito, não é isso que importa neste momento analisar: o que importa é que começamos a fazê-lo, louvada seja a estratégia. Se isso chega? Indubitavelmente, não.

No mundo dos negócios, a informação é considerada de um recurso privilegiado. É inquestionável que, se eu souber algo mais que o meu competidor, isso implica que estarei à frente dele: se eu sei de um negócio e ele não, isso permite-me tirar o máximo partido dessa mesma oportunidade primeiro que ele; se eu sei de uma técnica que me permite melhorar o meu produto ou fazê-lo chegar mais depressa ao meu cliente, por exemplo, isso é claramente um elemento diferenciador; se formos para o plano bolseiro, se eu sei que dadas acções vão encarecer, isso permite-me comprá-las ainda a um bom preço ou o inverso, desfazer-me delas, se elas tenderem a desvalorizar-se.

Penso, portanto, ter estabelecido, nestes exemplos simples que o Saber é um sinónimo de competitividade. Já a formação distingue-se da informação por não ser de uma natureza tão instantânea, tão… “em tempo real”  – com a contrapartida vantajosa de representar um volume de conhecimento sistematizado mais lato. Ter formação expande o espectro do que eu controlo; ter formação dá-me mais competências, torna-me mais actualizado perante o que os outros sabem, pensam e fazem – permite-me antecipar-me, fazer melhor, de um ponto de vista global.

Ora se, até aqui, muito se tem falado da formação dos operacionais, de modo a estes contribuírem para a oferta de bens e serviços de qualidade superior, parece-me que está mais do que na hora de se falar do pessoal da cúpula. Há toda uma série de preconceitos que necessitam ser urgentemente combatidos, pois estamos numa situação de alto risco, em que nada pode ser descurado.

Assim, queria desde já desmistificar três mitos:

A formação é para os operacionais

Como pode um patrão ter noção do que realmente a sua empresa necessita, se não sabe que desafios terá de enfrentar? Que pessoal precisa de contratar? Com que orçamento? Por quanto tempo? Como pode determinar isso, se não tem formação, que articule toda a informação, numa teia coerente? Porém, porque é que se vê claramente que muitos empresários e gestores não actualizam os seus conhecimentos ou não passam do conhecimento empírico (o conhecimento que obtiveram pela experiência e pela prática) para o fundamentar com conhecimento académico actual? Qual é o prurido snob que afecta as nossas «cabeças pensantes»? É preguiça? É medo de perder a imagem de invulnerabilidade?

Uma vez feita formação em gestão, um gestor está preparado «para a vida»

Com a constante evolução das realidades, como é possível manter esta mentalidade? Apesar de haver verdades simples que permanecem inalteradas (até ver), a verdade é que a exigência e a complexidade aumentaram. Temos de estar constantemente atentos ao que está a acontecer e isso exige estudo constante. Está a ver um médico a passar a vida toda só com o curso de Medicina, sem recorrer a formações constantes, sem atender a novas doenças e novas técnicas e terapêuticas? Pois é igual na Gestão e na Estratégia. Se não está disposto a dar-se ao trabalho… dê lugar a quem está.

A formação em Gestão é para os elementos do topo da pirâmide

Isto, não só é mentira, como, pelo contrário, e na minha opinião, cadeiras de gestão deveriam ser transversais a todos os cursos, para sensibilizar toda a gente para as problemáticas inerentes. Isso não só facilitaria a compreensão das dificuldades do trabalho dos estrategas, como permitiria um maior empowerment dos funcionários, até para uso pessoal dos mesmos.

Mais uma vez, parece que estou a redescobrir a pólvora, mas a verdade é que encontro pessoas que parecem não entender o pragmatismo destas pequenas verdades. Esperemos que à força da repetição se crie este desejo por um exigência de mais e melhor, para assim, tornarmos este país um exemplo mundial e podermos sair desta crise de competitividade.

Para terminar, na sequência da reedição comemorativa da obra “Princípios da Gestão Científica”, do génio pioneiro da Gestão, Frederick Taylor, deixo-vos com a máxima que Drucker nos deu, acerca do valor máximo da contribuição daquele para esta área:

“A chave da produtividade é o conhecimento e não o esforço” 

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