in Opinião

Otimismo vs Realismo

Provavelmente muitos já sentiram a mesma frustração com que vivo de forma mais acentuada com cada dia que passa. Mesmo com todos os meus problemas, são várias as vezes no dia que paro para pensar a sorte que eu tenho. E é mesmo sorte.

Mas a sorte não chega a todos, e cada dia que passa, alguém que conhecemos perde o seu emprego, a sua estabilidade, o seu direito de escolha, a sua liberdade e em muitos casos a sua autoestima – e isso é a verdadeira tragédia.

Uma das perguntas que me fazem mais, presentemente, é se posso ajudar a circular um CV, se conheço alguém que esteja à procura de pessoal ou se tenho algumas dicas para ajudar arranjar emprego. A resposta é quase sempre, infelizmente, não. Não que não queira, só não sei como.

Nunca percebo muito bem porque me escolhem a mim, poderá a ver com o facto que sou um dos top connectors no LinkedIn em Portugal, tenho muitos “amigos” no Facebook ou porque na realidade pedem a todos que encontram pelo caminho. Mas de certa forma devo estar a passar a imagem errada.

Só que o problema é que eu não tenho esse tipo de network. Não estou em constante contacto com muitas pessoas nem utilizo o LinkedIn como se calhar devia – é o meu roladex com mais de 15,000 contactos – contactos, repito. Nem eu sou esse “networker”, não me sinto confortável nesse papel nem o procuro.

E assim deparo-me com um crescimento acentuado de discursos sobre o empreendedorismo, a necessidade do otimismo e os inúmeros cursos de self branding. Eu próprio já fiz o mesmo, mas parei. Pois na realidade a única coisa que consegui fazer foi criar uma ilusão.

Nós não somos marcas, mas sim humanos, com tudo bom e mal que a imperfeição traz. E ainda bem, pois não queira trabalhar num grupo composto por eternos otimistas que acreditam veemente na arte do “feel good”. Mas para alguns que me conhecem bem, sabem que eu próprio passei pela fase self help, investindo mais de €400 em CDs do Anthony Robbins. Mas ninguém me convenceu a embarcar nessa jornada – fui eu que procurei perceber melhor o que corria mal na minha vida. Nunca tentei impingir este tipo de “terapia” a ninguém – ou escolhemos nos próprios envergar por este caminho, ou mais uma vez vamos empurrar quem nos ouve para o poço do otimismo, como solução. Para que não fique aqui nenhuma dúvida, não sou um pessimista – com tempo, a idade e a experiência, aprendi a ser o mais realista possível, mas isso não é sexy, nem é vendável.

Quando vejo o hype em torno “daquele episódio dos prós e contras”, quando vejo iniciativas como a do mf24, não consigo parar de pensar se estamos a vender erradamente o conceito do otimismo. O comprimido milagrosa que dura pouco tempo, que necessita de ser tomada constantemente e que provavelmente, como todas as outras drogas que criam dependência, acaba por não resolver os verdadeiros sintomas. E assim cria-se o conflito eterno, pois estas pessoas estão a tentar resolver um verdadeiro problema. Não sou cínico, mas questiono.

Podia facilmente criar agora uma lista, um plano e/ou uma estratégia para conseguir o seu próximo emprego. Mas não o vou fazer, não sei como. O que acredito são em vários atos isolados que nada contribuem para resolver o desafio que é hoje encontrar trabalho.

O envio de dúzias, centenas e ou até milhares de CVs só reforça erradamente a ideia que estamos na verdade, extramente ativos na procura do novo emprego. É o jogo dos números e da probabilidade, e como todos os casinos, as probabilidades estão a favor da casa.

O CV estandarte, conhecido pelo EuroPass, é provavelmente a pior invenção alguma vez introduzida, pois mais uma vez, só joga a favor da casa. Imagino que a sua existência só é justificada para ajudar aos mais preguiçosos que trabalham e não vivem os recursos humanos. Somos humanos, não produtos, nem marcas – já chega o Facebook e LinkedIn, que nos obrigam a estandardizar a nossa vida pessoal e profissional para facilitar a comparação com outros, por outros.

Não devemos procurar um emprego mas sim um trabalho que sabemos fazer, em que somos bons e onde vamos conseguir trazer uma mais valia. Não é por acaso que algumas pessoas com muito talento nem conseguem um mero part-time.

Mas acima de tudo, acredito que o otimismo desajustado cria as expectativas irreais que nos afastam do realismo que tanto necessitamos. Os tempos estão difíceis. Muito difíceis. O desemprego é um problema que afecta nos a todos de uma forma ou outra, mas a solução não passa por nos sentirmos convictos que tudo irá correr bem.

Esta ideia do empreendedorismo é provavelmente a mais perigoso de todas. Em nenhuma altura ouvimos o verdadeiro lado do empreendedor. Os sacrifícios, a isolação, os riscos, as dívidas, ironicamente, a falta de liberdade, os danos infligidos naqueles de quem mais gostamos, mas acima de tudo a pequena probabilidade de sucesso. A maioria dos empreendedores falham, e são poucos os que têm a sorte e capacidade de continuar. Tudo isto parece desaparecer naquele momento “feel good” de quem nos convence que é agora a melhor altura de criarmos algo nosso. O comprimido afinal foi também tomado pelo próprio conhecedor da verdade.

Este tema necessita de mais reflexão, mas acima de tudo, necessita de ações que não são nem vendáveis nem sexy. Se só 15% dos empregos são publicitados, se leva em média 6 contactos para conseguir contactar a pessoa com quem desejamos falar, se existem 200 milhões de utilizadores no LinkedIn, a maioria à procura do mesmo, e quando os Estados Unidos têm neste momento um deficit de 600,000 machinists, por exemplo, não devemos então repensar o que podemos fazer para efetivamente ajudar?

A comunicação entre empresas, os seus departamentos de recrutamento, e quem procura emprego tem que melhorar. As feiras de emprego que ajudam a melhorar o conhecimento e que aproximam quem recruta com quem procura têm que aumentar em quantidade e qualidade. Mas acima de tudo, temos que começar a viver de forma realista em vez de procurar o otimismo, que atenua a dor, paralisando as nossos habilidades de sobrevivência.

Não podemos esquecer que a mudança, a verdadeira mudança, veio sempre depois da dor, do sofrimento, do realismo. É a irritação que nos motiva mais para mudar. Somos afinal humanos.

Disclaimer: este artigo é uma opinião e está devidamente classificado como tal.

 

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