in Social Media

Bullying

São inúmeros os casos de adolescentes que, diariamente, são atormentados pelos seus pares. Social Media só veio propagar o problema. Curioso é, no entanto, o facto de o agente de propagação poder perfeitamente tornar-se parte da solução. Basta querê-lo.

Quando casos extremos resultam na morte de um adolescente, os media vêm relatar novamente este fenómeno, o qual, ainda que não seja novo, é ignorado com reincidência ou, na melhor das hipóteses, erradamente debatido.

Numa sociedade eminentemente vocacionada para a personalização e customização, premiando aqueles que se destacam, o caminho dos menos dotados é perversamente traçado, quase sempre pela dor e sofrimento, em muitos casos física e verbal. Na expectativa de encontrar uma rápida solução, aqueles que podem verdadeiramente ajudar os adolescentes, os adultos, acabam por não reconhecer o resultado da sua conversa sobre bullying, tal é a inadaptação do seu registo à narrativa dos adolescentes.

À semelhança de quase todos os problemas na sociedade, a solução raramente passa por regulação política ou por intervenção desadequada. Nem sempre quem é bullied reconhece sê-lo e reage pedindo ajuda, o que para todos os efeitos torna inúteis as iniciativas de autoajuda.

Um estudo intitulado The Drama! Teen Conflict, Gossip, and Bullying in Networked Publics, da autoria de Alice Marwick e Danah Boyd, apresentado no simpósio A Decade in Internet Time: Symposium on the Dynamics of the Internet and Society em 2011, revela que a maioria dos adolescentes não se autoidentificam, emocionalmente, como vítimas, sendo que paralelamente, adolescentes que cometem atos de bullying, raramente se reveem no papel do agressor.

Para que um adolescente se reconheça na linguagem adulta de vítima de bullying, terá que, obrigatoriamente, assumir um trauma social e psicológico. Carece concretizar uma introspeção pessoal na qual assuma que se encontra perante uma situação abusiva ou que perdeu o poder – poder de atuar, de lutar, de superar e, em derradeira instância, de viver.

Marwick e Boyd entrevistaram e analisaram adolescentes nos Estados Unidos durante vários anos. Quando inquiridos sobre o impacto de bullying, a resposta foi, invariavelmente, uma total rejeição da noção adulta de bullying, isto é, constante e erradamente traduzida pelos adultos como medo, sendo que a maioria negava a existência de bullying na escola secundária.

Todavia, estas atitudes não podiam divergir mais das observações encetadas durante o tempo que passaram com os adolescentes – o desafio tornou-se, assim, perceber esta incoerência. Enquanto denunciavam bullying, acabavam por descrever uma série de conflitos interpessoais como se fossem um “drama”. Com tempo aperceberam-se de que o termo “drama” era de facto um mecanismo de defesa,  protegendo-os do estigma de se autodeclararem vítimas de bullying.

Os adolescentes utilizam o termo “drama” para reduzir a importância de algo, algo que algumas vezes era divertido, outras sério e ridículo, de forma a conseguirem ter atenção de outros. Porém, aperceberam-se que o termo “drama” era utilizado, fundamentalmente, para representar o poder.

Esta proteção foi verificada não só nas vítimas de bullying como também nos próprios agressores, para mitigarem a gravidade de acontecimentos, permitindo distanciar-se de situações dolorosas. Refira-se que em casos extremos, essa negação redundou num desfecho trágico.

Este distanciamento entre gerações revela-se, novamente, impeditivo para encontrar uma solução. Os adultos pretendem que os adolescentes admitam a dor que existe e que lhes assiste, o que, por defeito, os obriga a assumirem-se como vítimas. Para adotar e encarnar o papel de vítima, ou agressor, exige-se um colossal suporte emocional, social e psicológico, algo que raramente existe nas campanhas anti-bullying.

Quando os poucos pedem ajuda, a resposta é mais uma vez desadequada, ainda que bem intencionada. Não só a maioria dos adultos se encontra deficitariamente equipada para lidar com o problema, bem como a necessidade de manter um determinado status social por parte dos adolescentes, obriga-os, bastas vezes, a continuar a enfrentar o mesmo, dia após dia. O próprio termo bullying insurge-se contra a ideia de que os adolescentes têm controlo, colocando-os perante um registo que os faz sentir fracos e infantis.

Procurar perceber o porquê ajuda-nos a verificar que de facto quem não mergulha nos temas, raramente tem a total percepção do que verdadeiramente importa, e este trata-se de um dos problemas subjacentes ao mundo digital. Com tanto enfâse na tecnologia, deveríamos debruçar-nos mais em torno do “porquê” – porque é que as pessoas partilham, porque é que passam tanto tempo no Facebook, porque é que percebem o perigo inerente à falta de privacidade mas continuam a publicar para todos verem…

Podemos assim perceber por que a série Glee se tornou um fenómeno internacional. Não tanto pela produção, música ou elenco, mas sim pelo facto que uma geração de adolescentes se rever nas diferentes personagens, cujo denominador comum é a marginalização pelos seus pares, pelo simples facto de se assumirem como são e de seguirem os seus sonhos. A solução passou por adicionar ao grupo de adolescentes Glee Club, um líder, um professor atormentado pelo seu passado e presente, criando um grupo de suporte capaz de superar qualquer agressão a cada indivíduo.

Tudo partiu de um vídeo de Mike Tompkins, uma personagem que podia ter sido alvo de bullying quando era mais novo. Um jovem que decidiu gravar músicas de outros, usando apenas o aparelho vocal e as mãos. Um conceito já tentado por muitos, mas nunca levado a sério – como performer, um verdadeiro artista que cria músicas com as caretas mais disparatadas – uma mensagem de esperança.

Tompkins é, ele próprio, um fenómeno da Web, das ferramentas de social media, que lhe conferiram o poder de criar algo à sua maneira, algo impensável sem as ferramentas YouTube, Facebook e Twitter. A sua arte está agora a ajudar outros a terem a coragem de seguirem os seus sonhos e a serem verdadeiramente únicos – afinal é isso que todos procuramos – sermos únicos sem termos que nos colocar à margem de outros.

httpv://youtu.be/begg0NKhiK8

 

Disclaimer: o tópico é demasiado importante para ir com os usuais erros ortográficos e assim passou por uma pessoa que o corrigiu. Gracias.

 

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