in TNW12

Andrew Keen #TNW2012

Andrew Keen é o anticristo de tudo 2.0 e agora voltou para nos brindar com a sua visão, parte II, inspirado no filme de Alfred Hitchcock, Vertigo (1958). No seu primeiro livro “Cult of The Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture”, Keen critica o movimento da Web 2.0, mas o livro contem demasiados argumentos sem qualquer fundamento, exclamando estarmos à beira do abismo, prestes a dar o passo em frente. Mas Keen acaba por financiar-se através dessa mesma critica contra o amadorismo, neste caso, do seu.

A sorte dele é que é de facto refrescante ouvir o outro lado do evangelismo de social media, obrigando-nos a pensar sobre a tecnologia e o papel que a mesma ocupa presentemente na nossa vida.

Alguns, como eu, que partilhamos somente a nossa vida profissional online, vão se sentir confortáveis, outros vão certamente entrar em pânico, mas não nos podemos esquecer que Keen é como todos os outros autores da era 2.0/3.0 – a tecnologia, a partilha e a comunidade, são todos factores importantes para propagar a sua mensagem, e neste caso, o seu segundo livro “Digital Vertigo” que vai ser lançado em Maio, mesmo a tempo de apanhar o hype em torno do IPO do Facebook.

Keen escolheu uma cena especifica do filme Vertigo de Hitchcock para narrar a sua mensagem – a metáfora é poderosa, a ironia maior – só na era 2.0 é que ele podia fazer um mashup destes, enfim.

Enquanto observamos James Stewart hipnotizado com a Kim Novak, Keen explica que durante todo este tempo, tivemo-nos todos a apaixonar com algo que não existe – as implicações da ubiquidade.

Mas existem alguns pontos que ressoam com muitos na audiência ao sermos apresentados com os títulos dalguns dos livros mais recentes de social media – o culto do social através de “We Think”, “Generation We”, “Six Pixels of Separation, etc. Social parece ser a resposta para tudo.

Mas Keen aprende rapidamente com os seus erros, desta vez, apresentando-se muito mais politicamente correto, reconhecendo a inteligência de alguns defensores do movimento (atualizado) 3.0 tal como Clay Shirky, Jeff Jarvis e claro, o seu amigo Robert Scoble. É que sem o apoio deles, ou pelo menos a tolerância da sua existência, o livro de Keen está morto à nascença.

Keen passa para Facebook, presentemente um alvo fácil dado que a maioria dos seus utilizadores têm um love/hate relationship, algo que Scoble explica lindamente como dependência, algo que será de facto o grande risco para todos nós.

Keen repudia a ideia central de Mark Zuckerberg, de criar o maior dorm room, onde podemos nos ver uns aos outros, reunir-nos e claro, expor-nos. No seguimento do seu tema de filmes, primeiro com Vertigo e agora com The Social Network, Keen narra novamente sobre uma cena, desta fez com o Sean Parker, retratado pelo Justin Timberlake, repetindo um dos momentos zen do filme, “the true digitalization of life”. Isto durante a festa onde Parker acaba por ser preso dado estar na presença de menores e consumo de droga. Keen consegue assim implicitamente ligar o pecado à digitalização das nossas vidas, e esses são sempre os seus ténues argumentos.

Keen simplifica o papel que a tecnologia tem tido nas nossas vidas – “primeiro vivíamos em vilas, depois passamos para as cidades e agora estamos na Web”.  Web 3.0, conforme Keen, erradicou a separação das nossas vidas reais com as virtuais, retirando à vida, todo o sentido. Cada vez mais vivemos neste mundo fictício, demasiada informação online, relações criadas e destruídas no mundo virtual.

Se Web 2.0 foi sobre o anonimato, Web 3.0, diz Keen, é sobre a revelação da nossa identidade, onde expressamos o que gostamos e definimo-nos online. Keen conta a sua ida a casa de Robert Scoble, onde falou com o seu vizinho que não o conhecia, e esta e a grande tragédia para Keen.

Keen avisa-nos do fenómeno destas novas empresas online que nos tornam num produto deles, na economia do like e do link. Enquanto Facebook constrói o maior dorm room, Google reage e “transforma o seu algoritmo artificial versão 2.0 para a mais social 3.0.”

O terceiro filme que Keen escolhe é o Truman Show (1998) com Jim Carrey. O seu narrativo continua, sobre filmes que duvido que tenha obtido autorização para projetar, representando esta noção que estamos todos a tornar-nos nesta pessoa, que vive num mundo fictício, desconhecendo que está a ser visto por milhões.

Mas Keen diz que não existe nada falso na vida de Truman onde a diferença entre a sua vida privada e publica desapareceu. Cansados dos efeitos especiais, Keen alerta-nos para o facto que a privacidade pertence ao passado onde já não existe o segredo, ou pelo menos a garantia do mesmo. Mas Keen esta preocupado por duas razões.

  1. Narcisismo digital: numa visita recente a um monumento histórico, Keen reparou, com alguma preocupação, ver as pessoas a fotografarem-se a si próprios em vez de apreciarem este local único. A audiência está agora mais preocupada em si própria do que na beleza que os rodeia. Não é social, defende Keen, mas sim aparenta ser social – tem tudo a ver com o ME, ou a economia WE. Por detrás do social, Keen vê o individualismo, num mundo que nos devia unir está agora a proporcionar uma experiência fraudulenta – uma mentira, como se fosse um ato de magia, uma trapaça. Mark Zuckerberg é para Keen o exemplo extremo do individualismo que queria um mundo em seu torno, repleto de friends para lidar com o solidão.
  2. Visibilidade como armadilha: Se por um lado, Twitter e Facebook são as ferramentas que supostamente ajudaram as revoltas no Egito e na Tunísia, o mundo não mudou conforme Keen. A visibilidade que Twitter deu aos revolucionários, é a mesma que os coloca em perigo dado que os governos destes países utilizam social media para apanhar quem os enfrenta. Pessoalmente, tenho alguma dificuldade nesta afirmação – quem somos nós, habitantes do mundo livre, para comentar o que é ou não importante. Se os revolucionários proclamam Zuckerberg como o seu herói, só posso respeitar e aceitar – afinal não sou eu que tive que lutar pela minha sobrevivência.

Keen não considera Google um mal, mas não lhe reconhece o mérito que muitos conferem. Keen considera a informação o novo petróleo, onde o valor de dados está a impulsionar esta nova economia. É essa, nossa, informação que fez Facebook crescer e mesmo que no futuro Facebook não mande as autoridades vir bater à nossa porta, Zuckerberg vai mandar as Coca-Colas e isso, acredita Keen, é pouco melhor.

Tenho que concordar com o facto que Facebook não é nada sem a nossa informação e todas as decisões estratégicas têm algo em comum – fazer com que a audiência partilhe cada vez mais, mais informação, mais privada, com menos proteção.

Keen volta ao Truman Show, na parte final onde Jim Carrey colide com a tela do estúdio onde Truman tem vivido. Ele chegou ao limite e quando se apercebe que tem estado a viver uma farsa, Truman escolhe subir as escadas, abre a porta e entra num local escuro. Mas para onde vai Truman?

Keen acredita que o escuro é definitivamente mais interessante e mais importante que o local onde presentemente estamos. Keen quer deixar este mundo virtual onde o social só se revela verdadeiro quando percebermos que estamos a ser seduzidos pelo culto do social que nos inibe da coerência social que procuramos.

Keen já não está no Facebook, ele saiu e quer eu o deixe também, mas vai ficar no Twitter. Afinal o livro sai em Maio. Está na altura de divulgar o anticristo da divulgação. Genial?

Mas por fim, tenho que dar alguma razão a Keen. Chegamos ao ponto onde ficamos todos entusiasmados por ver uma vaca – uma vaca verdadeira. Que refrescante para uma audiência que provavelmente achava que as vacas estavam no Farmville.

Vaca

apresentadora do TNW2012 abraça uma "verdadeira vaca"

Em direto da TNW 2012 - Clique aqui para todo os artigos

Write a Comment

Comment

Webmentions

  • Os Prós e Contras de Social Media |

    […] negativas e, em alguns casos, destrutivas, constituem, entre outros, temas recorrentes.Alguns, como Andrew Keen, escondem-se por detrás de falsas e, em alguns casos, escandalosas, suposições, editando livros […]