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Piratearia

Ontem surgiram inúmeras noticias online sobre a piratearia, o seu suposto impacto nas vendas, no desemprego e na economia – Agência Financeira, ionline, Diário Economico, ComputerWorld, Público e provavelmente todos os outros. Pena não se dedicarem a estes temas com o mesmo interesse que dedicam ao Miguel Relvas e Filipe Vieira.

O relatório que surgiu de um estudo realizado pelo Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica e conduzida pelo investigador Ricardo Ferreira Reis, demonstra as dificuldades que as universidades privadas também já devem estar a sentir. É que o estudo foi patrocinado pela Microsoft.

O problema reside sempre nos objectivos de um estudo, dado que está provado que os resultados vão ser sempre afectados pelas perguntas no estudo que são por si desenvolvidas consoante os interesses de quem conduz os estudos.

Se por um lado os resultados impressionam, especialmente tendo em conta que vivemos numa economia fragilizada onde qualquer menção de aumento de postos de trabalho parece resultar numa inconsciente partilha da informação ausente de qualquer analise, por outro devemos ver com atenção algumas frases que desvendam a sua (in)utilidade.

Depois de digerirmos os seguintes factos (período de 4 anos):

  • –  um aumento no PIB de 1150 milhões de Euros;
  • –  melhoria de 0,6% do atual PIB;
  • –  criação de mais de mil empregos;
  • –  um aumento fiscal de 320 milhões de Euros

Devemos pensar no seguinte:

  • –  É curioso que ficamos sem perceber o porquê de 4 anos. Porque não aumentar o impacto, passando o período para 10 anos?
  • –  Qual a lógica de pegar num valor referente a 4 anos e depois compara-lo como percentagem do PIB de um ano?
  • –  Este estudo é “um cenário hipotético de diminuição da piratearia em dez pontos percentuais”. Quais os critérios para decidir uma analise “hipotética” de 10%?
  • –  “O relatório nota, porém, que o efeito não é linear e que os impactos na economia são mais ou menos sentidos consoante o nível de pirataria”. Mais ou menos? Sentidos? Qual nível de piratearia?
  • –  O próprio investigador Ricardo Ferreira Reis admitiu “pouco plausível uma redução de dez pontos percentuais” em Portugal. Então não parece descabido a escolha de 10%? Qual o objetivo afinal deste estudo?
  • –  O estudo também extrapolou dados da BSA, Business Software Alliance, e IDC mas sem referencia a Portugal. Mas o próprio estudo da BSA já foi algo de criticas dado não ter em conta a desvalorização do USD.

As conclusões do estudo são ainda mais interessantes:

  • –  “as conclusões sobre os impactos da quebra permitem dizer que “o caminho é claro: baixar”
  • –  “Ricardo Ferreira Reis chamou a atenção para o efeito positivo da distribuição de computadores portáteis nas escolas, dado que estes, por um lado, já são entregues com software licenciado e, por outro, contribuem para uma abertura tecnológica da população, o que tende a ter um impacto positivo na redução do uso ilegal de software.” – ou seja, um portátil baratíssimo que já inclui software legalizado leva ao consumidor a ver os méritos da compra de software. Não consigo ver essa associação, bem pelo contrário. Da próxima vez que o tal consumidor decidir ir comprar software, vai estar ainda menos inclinado para o fazer, dado que o seu preço vai provavelmente ser mais alto que o portátil que compra para os seus filhos, que já vinha com software legalizado. Que raio de raciocínio.
  • –  Curioso também verificar que o estudo conclui que “Quanto maior o nível de rendimento de um país, menor a taxa de pirataria”, mas em nenhuma parte fala sobre o impacto do preço de software no nível de piratearia. Parece-me óbvio que em países onde o poder de compra é superior, menor peso é atribuído a compras de software. O preço é um aspecto fulcral mas ignorado em todas estas conclusões.

Mas concordo com uma questão levantada pelo estudo: o aviso “que a crise financeira representa um risco para Portugal neste capítulo, devido à quebra de rendimentos da população.” Mas qual o enquadramento dado que as empresas que produzem software não estão a diminuir os preços em conformidade com a diminuição do nível de poder de compra?

Mas o erro crasso do investigador, revelando as possíveis motivações para este estudo, e em acreditar que “a justiça é o ponto central” para a redução do problema, ou seja um maior controlo e maior defesa das praticas das grandes empresas. O argumento é todo centrado na simplicidade da tese que tudo isto resulta da nossa tolerância pela corrupção, ou seja o “vício publico” e a nossa prática de piratearia por causa de um “vício privado”. Desta forma, fica totalmente de parte todos os outros argumentos. Ou seja, ficamos na mesma, virados de costas para o problema de piratearia.

Neste caso, os jornalistas deveriam logo ter verificado a incongruência de ter um estudo sobre piratearia de software patrocinado pela Microsoft. Não por ser a Microsoft, mas por ser a maior empresa de software. Mas este pequeno (grande) pormenor parece ter sido ignorado pelo jornalismo que temos presentemente.

Reitero que não sou, nem me considero, um jornalista – não tenho as necessárias competências mas felizmente ainda tenho a capacidade de pensar, analisar e questionar. Também devo dizer que não sou a favor da piratearia mas confesso que vejo-a de forma diferente. É o resultado de um mundo pessoal, social, partilhado e consumido, a uma velocidade alucinante – para o bom e para o mal. Mas também é um resultado da constante luta de algumas industrias de querem continuar a viver no passado.

O que não consigo compreender, é que, se na realidade temos interesse em resolver esta questão, porque continuamos a ignorar o facto que vivemos num mundo digital que vaio alterar alguns pressupostos que no passado até poderiam ter feito algum sentido.

Industria Discográfica

Durante décadas, a Industria Discográfica, lucrou à custa dos seus artistas, desenvolvendo um modelo de negócios que não só lucrava com a venda imediata dos seus produtos, como continuava depois a lucrar através do seu catálogo, durante anos, inclusivo após a morte do artista.

Infelizmente, o ser humano parece ter uma memoria muito curta, pois não foi há muito tempo que as editoras chulavam os seus artistas. Estranho então ainda ver alguns artistas que decidiram se juntar às editoras para lutar supostamente contra os piratas, aqueles que provavelmente em grande parte, continuam a contribuir para o artista, normalmente através da compra de bilhetes para o espetáculo.

No passado, qualquer contrato de uma editora discográfica, exigia que 3 das músicas de um álbum, ficariam sempre sobre o controlo da editora, isto para satisfazer as suas necessidades de vender um álbum que normalmente nem 3 boas músicas tinham. O consumidor ou comprava o álbum, com uma ou duas músicas que gostava, acabando por ignorar o restante, ou decidia copiar a música que queria de outros.

Steve Jobs percebeu e atuou, criando o mercado dos singles, e a um preço para o cliente final que fosse suficientemente baixo para que o esforço de copiar da Web acabasse por ser superior ao de comprar o single. E os números comprovavam não só sucesso da estratégia bem como a tese que a maior parte da piratearia, é um resultado da ganância ou excesso de controlo sobre o que queremos na verdade comprar.

Hollywood

Hollywood não é diferente, sendo que com cada novo formato que aparecia, a industria acabava por criar algo que funcionasse a seu favor. Lançar um filme no cinema teria por si um retorno, depois o lançamento em DVD vinha com uma outra receita, depois seguia as receitas da televisão. Formatos diferentes do mesmo produto, com preços diferentes, meticulosamente controlado para apanhar o máximo de receitas possível, tudo isto, claro, à custa do consumidor. Seria inevitável que mais tarde ou mais cedo, o consumidor iria-se revoltar. O que nenhuma destas industrias percebeu, é que alguns destes consumidores já se tinha apercebido da força da tecnologia nas mãos das massas – bem vindo ao mundo do Napster.

Mas em vez das diferentes empresas criarem novas estratégias que se adequassem ao novo mundo digital, a maioria escolheu lutar contra a evolução e inovação. Nunca se tratou de ser justo ou não, mas sim adaptação às mudanças constantes, quer no mercado, quer no comportamento do consumidor.

Não podemos querer usufruir dos avanços da tecnologia em alguns casos (surround sound, HD, 3D) só para depois querer desligar a parte que não interessa. Partilhe a mensagem mas não o produto? Quão naive todas estas empresas foram, e para todos os efeitos, continuam a ser.

O Utilizador

Um dos principais problemas que resulta na piratearia é a continuada aplicação de modelos de negocio que estão desatualizados, não em 2 ou 3 anos, mas sim em décadas.

Sou um cidadão que respeita a lei mesmo que muitas as vezes não a compreenda, mas felizmente a minha educação levou-me a respeitar os outros – neste caso quem cria obras. Mas também aprendi a exigir que me respeitassem de igual forma – neste caso pelos que continuam a tentar fazer o máximo de dinheiro tentando controlar um processo que já se revelou anacrónico.

Pago um valor desassustado à MEO, como também já o fiz a ZON, para ter televisão por cabo. Sou obrigado a pagar mais por alguns canais que têm os programas que quero. Mas nem sempre consigo apanhar, por exemplo, a série Missing. Não é uma prioridade minha, mas as barreiras irritam-me. Estou a pagar para ver algo quando e como outros acham que o devo fazer. Consigo gravar séries mas nem sempre o processo é tão linear. Mas paguei para puder ver Missing. Perdi dois episódios e como fiquei sem eletricidade durante uma noite, não tenho forma de ver algo que supostamente tinha gravado. Solução? Pirate Bay.

Sou criminoso? Não. Simplesmente estou a tentar ter acesso a algo que já paguei. Vou partilhar com outros? Não, não sou pirata. Em alguns casos, os programas que tenho gravado na minha box, que paguei, não me conferem o direito de as mover para outro dispositivo. Vou de férias e não vou levar a minha box comigo. Solução? Pirate Bay.

iTunes comprovou que as pessoas, em geral, preferem pagar do que passar pelo processo de piratear conteúdo da Web. Basta encontrar o price point que o mercado está preparado a pagar, criar uma forma simples e eficaz de distribuir o conteúdo que compramos e permitir que esse mesmo conteúdo seja consumido noutros dispositivos, como e quando queremos. No caso do ecossistema da Apple, continuamos condicionados ao numero de dispositivos e tipo de aparelhos no qual podemos consumir o que pagamos.

Por outro lado, compro umas calças na Zara, que foram desenhadas por um criador, mas seria ridículo não puder imprestá-las ao meu irmão, oferece-las a uma instituição ou até vende-las alguém. Qual a diferença? Não existem criadores com direitos na roupa?

O modelo presente é que está claramente errado. As empresas não podem continuar a tentar forcar-nos a pagar valore diferentes em alturas diferentes do ciclo do produto. Ou seja, Men In Black III. Não seria sensato lançar o filme nos cinemas, em DVD e online ao mesmo tempo, mas com diferentes preços? Um preço mais baixo no cinema, mais alto em DVD e preço premium para quem quiser ver no dia em que sai, em casa. Se conseguissem acertar nos corretos price points, não iria existir a necessidade de recorrer ao Pirate Bay.

Mas nem Hollywood, nem a Industria Discográfica, quer isso. Um pouco como os bancos, todos estão a tentar manter as suas margens sem que devolvem ao consumidor final um verdadeiro valor acrescentado a um preço que seja justo. Na realidade, podemos até aqui juntar a discussão dos 99% e a desigualdade que existe, muito pelo resultado da discrepância nas margens – Apple parece ser o melhor (ou pior) exemplo com uma conta bancária que qualquer dia pode bem comprar, não em termos práticos claro, o seu governo.

Enquanto a discussão sobre a piratearia continuar a ser conduzida pelos interesses de grupos que querem lucrar ainda mais, ou em alguns casos, lutam pela sua sobrevivência,  nunca vamos conseguir resolver em parte, este comportamento, até porque ninguém até hoje conseguiu quantificar de forma clara e transparente, o verdadeiro valor afecto à piratearia.

Infelizmente, enquanto acreditarmos que “a luta contra a pirataria passa por uma questão cívica e pela sensibilização dos utilizadores ao valor da propriedade intelectual”, não vamos chegar longe.

Imagem: TugaTech

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