in Mobile

Fico sempre surpreendido quando ouço alguém dizer que a Apple parou de inovar, está ultrapassada ou já não é “cool”. Alguns dizem que a culpa é da própria Apple por não saber gerir as expectativas dos seus clientes e potenciais clientes, outros apontam para a concorrência com melhor opção. Na realidade estão correctos, mas a concorrência é que está a mudar o mercado.

Num mundo em que procuramos o equilíbrio, onde a concorrência beneficia a todos, não poderá na realidade ter sido a concorrência que melhorou, enquanto a Apple manteve o seu percurso?

De Outubro de 2011 a Setembro 2012, Microsoft, Google, eBay, Yahoo, Facebook e Amazon tiveram em conjunto, resultados líquidos de $34 mil milhões de USD – Apple, sozinha, registou mais $7 mil milhões.

No mesmo período, Dell Asus, Intel, Acer, IBM, Lenovo e HP, ou seja praticamente o mercado todo de PCs, registou $19.3 mil milhões de USD, ou seja menos que metade do valor da Apple, sozinha.

E o problema é este. Não tem tanto a ver com o que a Apple faz, ou tem feito, mas sim o que a concorrência conseguiu ou não fazer. Não é suposto ser assim. Ficamos todos a perder quando não existe um saudável equilíbrio no mercado que se revela através de um aumento de escolha, uma inovação global e pressão de preços.

Mas não podemos esquecer que o equilíbrio no mercado dilui o poder das empresa, para o bom e para o mal. Para o bem, sabemos nós bem. Mas para o mal? Não acredito que teria sido possível enfrentar a industria discográfica sem o poder que a Apple teve. Estaríamos agora ainda a comprar álbuns com uma ou duas músicas que queríamos?

Mas os lucros da Apple são pornográficos e não são sustentáveis pois se não for o mercado a resolver este crescimento de poder económico, será certamente o governo. Uma empresa de tecnologia com $140 mil milhões de USD em cash? A crescer a um nível assustador, vai mais tarde ou mais cedo ter que fazer algo, por escolha ou por imposição.

Mas o mercado já demonstrou, finalmente, que consegue concorrer com a gigante maçã, e cada vez mais, acaba por fazer melhor. Nos últimos meses, tenho tido a oportunidade de testar o Galaxy SIII, Galaxy Note e Nexus – todos do ecossistema Android e dispositivos fantásticos.

Para um utilizador quase exclusivo do sistema operativo iOS, já são demasiadas as vezes que fico com alguma pena de ter investido tanto tempo e estar demasiado preso com o iOS dado as inúmeras funcionalidades que Android agora apresenta, especialmente na nova versão Jelly Bean – está excelente. Mas este é o grande dilema do open vs closed.

Tenho um iPad (primeira geração), um iPhone 4 e um MacBook Pro com quatro anos. Não tenho nenhuma necessidade de atualizar qualquer um dos dispositivos. Este será certamente um dos grandes desafios para a Apple que cria produtos caros mas excelentes e que agora, em termos tecnológicos, duram. O mesmo se passa com a industria automotiva. Já não é nada estranho ter um carro com mais de 250,000 kms.

No meu ver, a Apple não está abrandar, não está a inovar menos, está sim a continuar no seu caminho. Uma coisa é certa, o seu modelo de negócios é extremamente sólido e revela uma capacidade de reter margens nunca vistas, nem mesmo no sector tecnológico, quer do consumidor, quer empresarial.

Os grandes vencedores são agora a Samsung e Google que têm conseguido uma parceria (implícita) que domina hoje em dia a guerra dos smartphones, à custa não da Apple, mas sim da RIM (Blackberry), Nokia e todos os outros que tentaram vingar neste novo mercado em que a margem de erro é praticamente nula.

Mas o futuro não será, nem pode alguma vez vir a ser, um mundo exclusivo Google, Apple ou Samsung. Estamos neste momento a começar a viver o equilíbrio necessário para que a inovação não encalhe. As escolhas são inúmeras, e de certa forma, demasiadas, algo que continua a favorecer a Apple. É que o consumidor normal não escolhe primeiro se quer pertencer a um ecossistema fechado ou aberto, para depois tomar a decisão em quem deve apostar.

Se por um lado, o preço já está mais que provado ser um factor importante na decisão de uma compra, a confiança está-se a revelar tão ou mais importante na decisão, e confrontado com uma demasiada alargada escolha de dispositivos, a qualquer price point, a indecisão e confusão leva muitos a cair na escolha da Apple. Ou pelo menos é o que acontecia, agora a confiança já cai na Samsung. Este é o grande desafio para a Microsoft – como se inserir como uma escolha dos big three.

Finalmente podemos dizer que estamos perante um leque de escolha que nos permite optar por um dispositivo, não com base no que todos escolhem, mas sim na nossa preferência de preço, tamanho, características e claro, marca.

Mas preparem-se pois a Apple vai voltar a surpreender – está no seu ADN. Pode não ser na mais que falada televisão Apple, mas existe muito mais… vejam só a sua ultima jogada de travar o ipod como relógio, através de terceiros. Este é um sinal que estão a preparar entrar nos wearables – tecnologia como acessórios. Um relógio que controla e recebe notificações do smartphone, tablet e cloud. Eu queria um, e não utilizo relógio. Está na altura de olhar para alem do dispositivo rectangular.

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