in Opinião, StartUps

Como ponto prévio, quero dizer que este é um texto de opinião. Assim, merece, deve e espero vir a ser contra-argumentado mas deixo desde já o pedido que o tomem como tal. Isto é, este texto não é a posição oficial de nenhuma das instituições e organizações a que pertenço.

Não sou, nem me quero assumir como, um “especialista em empreendedorismo”. Não sou também, de longe, um empreendedor experiente. Sou uma mistura entre o observador atento e o participante ativo sem pretensões de ser mais do que isso. Mas, independentemente daquela que pode ser a minha posição, não posso deixar de não reparar em diversos sinais perigosos que tenho visto à minha volta no último ano e meio.

Vivemos hoje em Portugal numa cultura empreendedora hipster. Ter uma startup, nova empresa, ou como queira chamar-lhe, deixou de ser um exercício de paixão, de vontade de ganhar dinheiro ou ajudar a resolver um problema, para passar a ser uma industria. Uma industria que, tal como a do cinema ou música, é controlada, explorada e minada por um conjunto de agentes que se posicionaram como as “driving forces” do movimento empreendedor português.

E depois vem a imprensa que pega em tudo o que teoricamente é “quente”. Recentemente conversava com uma jornalista portuguesa, de um diário de grande tiragem, que me dizia “Mas a sua ideia não é a primeira. Não é uma startup.”. “Veja os exemplos do Google e outros. Não foram os primeiros. Foram os melhores… a executar. É isso que pretendo ser”, ripostei. A minha resposta, mudou rapidamente a sua opinião. “Ah… tem razão, conte-me sobre a sua startup.” Um navegar ao sabor do vento que me assusta. Por não ser só dos jornalistas mas de todos os agentes. Recusei a entrevista.

Entenda-se que sou pró-empreendedorismo. E ainda mais pró-desenvolvimento do país e do seu tecido empresarial. Acho necessário fazer crescer o espirito empreendedor em todas as camadas da sociedade (não só para criar novas coisas, mas também dentro de empresas já existentes), o que não acho necessário é que toda a gente crie uma empresa, que tenhamos mais programas de apoio para criar empresas que pessoas capazes de começar o seu negócio. O que me custa assistir, especialmente em modo comparativo, é a um crescimento artificial, a uma quase necessidade institucional de ter um hub de empreendedorismo. Assusta estarmos a dizer a toda a gente que pode ser empreendedora… quando nem todos podem. É termos “startups” sem mercado ou ambição… ao sabor do vento.

Em Berlim, um dos assumidos hubs de empreendedorismo na Europa, o cenário é completamente diferente. E independentemente de existir sempre um conjunto de pessoas que tentam assumir o protagonismo nesse momento de crescimento, quem está realmente no mundo startup sabe que o foco deve ser criar e fazer crescer empresas. Mais, o que Berlim tem e Lisboa não, é um conjunto de empresas que estão já a crescer a um ritmo interessante e com isso ajudam a dar oxigénio (e não dióxido de carbono) a um movimento de empreendedores: contratam, formam e depois deixam sair talento técnico e empreendedor, investem, arrendam espaço ou simplesmente dão o conselho que as empresas mais recentes precisam.

Neste momento, em Portugal, temos um “concurso de empreendedorismo” ou programa de aceleração em cada dia. Empresas, associações, clubes e todas as pessoas que consigo imaginar, tentam posicionar-se nesta “onda”. Mas… esperem. Para ninguém criticar é porque sou eu que estou completamente fora de mim, certo? Não. Temos é um conjunto de pessoas que não fala porque, de uma forma ou de outra, apercebendo-se ou não, estão a beneficiar desta bolha.

Estando a acompanhar o ecossistema europeu de startups há um bom par de anos, e organizando uma conferência que tem foco nessa área, a verdade é que sinto que chegámos a um limite. E independentemente de continuar a falar sobre empreendedorismo pela Europa, a desenvolver uma startup e a organizar uma conferência na área (refocando-a) não posso compactuar com este silêncio sobre o que está a acontecer.

Estamos a saturar o mercado e é preciso que os agentes que nele operam o percebam. Em Londres, por exemplo, não há esta necessidade da “fanfarra”. Há meetups, small gatherings sem o pretenciosismo de quererem formar empresas, dar investimento ou seja lá o que for que os eventos em Portugal acham que fazem.

Voltando a Lisboa. Sem querer abrir uma “guerra regional”, considero que o Porto tem muito melhores condições para se tornar o dito hub que Lisboa tão desesperadamente tenta ser. Primeiro porque uma coisa é ser uma “startup city” no plano do PR e marketing, outra é sê-lo de facto. E segundo, porque vejo o crescimento sustentado. A Rocket Internet abriu um centro de desenvolvimento no Porto. Esta foi, provavelmente, a melhor coisa que podiam ter feito para posicionar o Porto como lider em startups (seja lá o que isso for) em Portugal. Porquê? Porque tal como aconteceu em Berlim, são os antigos “Rockets” que vão criar empresas e fazer crescer (naturalmente) o tão famoso “ecossistema de Startups”. E tudo isto sem “buzz”, sem assumir que vai ser o que ainda não é.

O problema de Portugal, especificamente de Lisboa, é precisamente esse. Muito crescimento artificial. Muita cerimónia, fanfarra, prémios e glamour. E menos, infelizmente, acção, visão, resultados e crescimento orgânico. Um bocado de buzz é necessário, um pouco de glamour também, mas o exagero não.

Este é o panorama de um país em que há uns anos ninguém conhecia a palavra empreendedorismo e em que agora se “colam” a ela todas as empresas que conseguem, todas as pessoas que com serviços ou iniciativas conseguem dinheiro ou fama à custa do dito, inexistente, ecossistema. Parece que pegamos nesta ideia de tornar Lisboa uma cidade startup, a entregámos a estes “gatekeepers” e esperamos agora que isso aconteça pela via do marketing ou do milagre. Enquanto isso aproveitamos e navegamos na onda, explorando tudo o que podemos e não podemos. E é isso que mais do que me chatear, preocupa. É ver negócios e iniciativas que nascem de forma puramente oportunista, sem qualquer tipo de valor acrescentado que não o exploratório. Vejo dezenas de pessoas que nada tinham a ver com empreendedorismo e que agora são “experts”. E isto é mau porquê? Porque ofusca as verdadeiras histórias de sucesso. Os empreendedores que lutam, nas luzes ou fora delas, que criam negócios, as iniciativas louváveis de promoção dessas pessoas. Tudo isso é assimilado, explorado, ofuscado, ignorado… em troca desta ideia de que porque temos sol e bacalhau somos o melhor destino para o pessoal criar uma empresa.

Note-se que, apesar do que referi durante este texto sou a favor da criação de empresas, da atitude empreendedora, da promoção das mesmas e eventualmente, se esse for o caminho, de uma “startup city”. O que gostava de ver a não acontecer é este construir de um ecossistema à imagem do Valley… começado no telhado. O tão ambicionado Valley não começou com “promotores de empreendedorismo”, mas com empreendedores, ideias, vontade e energia. É isso que trabalharei para ver acontecer.

Como orador e participante em vários eventos não sou, obviamente, anti-exposição. Sou, aliás, a favor de PR e Marketing a favor das empresas – mas a execução é demasiado importante para ser ignorada. E mais que isso, temo que nem Lisboa nem o Porto nem nenhuma parte de Portugal consiga vir a ser um centro de empreendedores se cada vez que um grupo, mais ou menos organizado, de pessoas se junta para resolver problemas à sua volta, criar e crescer o seu negócio, aparece a caravana de eventos, PR, marketing e “cidade startup” atrás. Se cada vez que tentarmos criar empresas, fazer crescer negócios e inventar e criar aparecerem estes “senhores do empreendorismo” que nos sugam o oxigénio e monopolizam e exploram as vontades e ideias. Se cada vez que virmos meia dúzia de empresas a juntar-se e a criar negócios quisermos chamar aquele local uma cidade Startup, vamos acabar sem cidade startup nenhuma e, pior, sem empresas, crescimento, emprego e fullfilment das pessoas que criam o ecossistema. Esse é o dia que temo venha a chegar e é isso que tentarei evitar.

Vamos continuar a deixar que isto aconteça? Ou será que, ao contrário do que prevejo, o fumo desaparecerá e começaremos a ver a luz?

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