in Talent

Confesso que fico baralhado com a forma como tratam, na praça publica e nos tribunais, aqueles que estão dispostos a questionar o status quo – aqueles que, frequentemente, são responsáveis pelas maiores e mais importantes inovações.

Vejamos, por exemplo, as histórias de hackers que se infiltraram naquilo que se pensava ser à prova de tudo e de todos; uma vez apanhados, processados e punidos, são posteriormente recompensados com um emprego de sonho, no qual lhes é confiada a tentativa de travarem outros com o mesmo desejo e capacidade.

Com o tempo, as grandes empresas e os governos aperceberam-se que só estavam a motivar tais “ataques” – pensavam eles. Tal sucede com as empresas grandes que procuram incessante e sagazmente elementos inovadores, sufocando-os depois com procedimentos, job descriptions e hierarquias, relegando para um plano secundaríssimo o conhecimento e compreensão das mentes que vivem, verdadeiramente, “outside the box”.

Sexta-feira foi um dia triste para o movimento que promove a inovação com o suicídio de Aaron Swartz – desconhecido, para muitos, um herói, para alguns, esmagado pelas forças que deveriam tê-lo protegido.

Para quem o noticiou como um hacker só demonstrou a sua ignorância e desprezo pela necessidade de fomentar “openness”.

Para quem o perseguiu, a United States Secret Service’s Electronic Crimes Task Force e a Cambridge e MIT Police Departments, sexta-feira foi um dia invulgarmente irónico para estas organizações: pretendendo que fosse punido pelos seus atos, durante, pelo menos, 35 anos, Aaron acabou por surpreende-los suicidando-se; a morte para um jovem que pouco mais fez que “entrar num armário que não estava trancado”.

David Weinberger escreveu um excelente post apelando a todos para que Aaron fosse conhecido, não como hacker, mas como um jovem com enorme talento que esteve envolvido:

  • na construção do estandarte RSS, com 14 anos;
  • na arquitetura inicial do CreativeCommons.org;
  • na arquitetura inicial da OpenLibrary;
  • na luta contra SOPA e a PIPA;
  • responsável pelo sucesso de Reddit, entre outros. (fonte: Hyperorg.com)

Algumas personagens, tais como o Sean Parker, fundador do Napster que se tornou um multimilionário da Web, devem sentir-se deveras desconfortáveis com todos estes acontecimentos, até porque viveram uma época onde conseguiram escapar ao olhar desatento do Governo Americano.

O próprio presidente da MIT, L. Rafael Reif, viu-se na obrigação de escrever uma carta aberta, da qual transcrevo alguns dos seus comentários referentes à atuação da MIT, a organização que deveria, tão só, ter protegido Aaron Swartz, mas que escolheu fazer dele um exemplo para outros:

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Although Aaron had no formal affiliation with MIT, I am writing to you now because he was beloved by many members of our community and because MIT played a role in the legal struggles that began for him in 2011.

It pains me to think that MIT played any role in a series of events that have ended in tragedy.

Now is a time for everyone involved to reflect on their actions, and that includes all of us at MIT.

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A maioria dos cibernautas que usufruem da Web, não como um produto ou serviço controlado e centralizado, mas como algo aberto a todos, responsável pela maior inovação de sempre, desconhece as lutas e exasperações daqueles que tudo fazem para que a Web se mantenha livre do controlo e da censura. Algo tão poderoso que finalmente deu voz a povos que sempre viveram oprimidos por ditadores, sem que o mundo soubesse ou se preocupasse.

A maioria não se apercebeu que os governos, dos Estados Unidos à Europa, tentaram exercer controlo sobre aquilo que lemos, vemos e partilhamos. Mas nunca paramos para pensar quem lutava, e luta, pela nossa independência online.

Vamos ter que encontrar uma forma de separar os hackers, ou conforme o Weinberger, os builders, daqueles cuja intenção é a de simplesmente destruir e criar o caos.

Uma coisa é certa: se não esperávamos mais do Governo Americano, já não o podemos dizer da MIT. Essa deverá ser a verdadeira dor para quem pertence a essa grande instituição. Como afinal, é possível ter deixado tal coisa acontecer e quais serão as consequências para todos aqueles que se  reveem, que se identificam com Aaron Swartz.

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Imagem: Michael Francis McElroy/The New York Times

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