in Facebook

Ao contrario de todas as outras redes sociais que vieram antes e depois do Facebook, algo diferente aconteceu com a maior rede social de sempre. Algo que poderá acabar com o seu domínio total. Algo improvável neste momento para muitos, mas não nos podemos esquecer que a morte lenta raramente é curada devido a sintomas imperceptíveis.

A falta de modelo de negócios do Facebook deveria ter sido o primeiro sinal. Podemos assumir que qualquer empresa online que acredita que vai reinar com receitas de publicidade não tem um futuro financeiro garantido, pelo contrario. Continuamos a ouvir que o Facebook irá resolver esta questão – mas o facto é que não o fez até agora.

Além da falta de modelo de negócios, Edgerank tornou-se assim o segundo aviso. A mais valia de uma rede social é a plataforma criada em torno dos utilizadores. Facebook não é nada mais que uma plataforma tecnológica, cujo valor advém do conteúdo gerado pelos seus utilizadores – sem essa interação, vale zero. Pior, chegando à dimensão presente, uma diminuição de interactividade, algo que alguns chamam “engajamento” (um termo provavelmente melhor utilizado em porn), poderá ter consequências catastróficas, necessitando só de alguém com a capacidade de criar uma plataforma igual com um simples plugin que importa todos os seus assets – fotografias, amizades, comentários, vídeos, etc. A única barreira à mudança é a falsa convicção, por parte do utilizador, que já investiu demasiado no Facebook, para mudar. Retire essa barreira e tudo é possível.

Edgerank não só desrespeitou o utilizador, dado que decide pelo utilizador o que vai ver, em que ordem e quando, como também criou uma mangueira, fluxo de informação, constrangida pelo tamanho possível do stream. Adicione a velocidade necessária para dar face a quantidade de conteúdo a ser partilhado, o resultado é algo inútil. Não me lembro da ultima vez que vi algo de interesse no meu stream.

Voltando ao aparente modelo de negócios assente na publicidade, ou neste caso de posts pagos, verificamos novamente que esta estratégia só pode ter sido elaborada com plena consciência dos efeitos perversos na sua utilização. Ou o Facebook foi naive, ou que não acredito, ou então embarcaram numa solução rápida dando-lhes tempo para resolver o verdadeiro problema. Mas a solução está longe e provavelmente necessita de uma profunda alteração de plataforma – freemium model, uma versão paga e uma versão gratuita.

Quais os sintomas? Se inicialmente eu conseguia “promover” um post meu com um impacto mais ou menos garantido, já que o Facebook cortou me a mangueira para 25% de visibilidade para os meus “amigos”, parece que não fui o único a ser forçado a embarcar numa espécie de freemium model. Ou seja, os meus posts são gratuitos mas aqueles que são importantes para mim, vão ter que ser pagos.

Com o aumento do numero de pessoas a “promoverem” posts por +/- €2 cada, o resultado era inevitável. Demasiada procura para a possível oferta de real estate, espaço no stream para introduzir posts pagos no meio de todos os outros. O que verifiquei foi uma diminuição no reach, e claro com tempo, um aumento significativo no valor pago por post, agora acima de €5 cada. O resto já sabemos. Enquanto se satura o mercado, o valor aumenta, até um ponto onde quem tem a capacidade, ou interesse, em pagar esses valores, nada de bom traz à comunidade – basta só ver os banners online, incluindo a maquina dos peides, o IQ da Madonna e promessas de ficarmos ricos enquanto emagrecemos, sem qualquer esforço.

O mesmo tem acontecido com as páginas das marcas e o resultado ai será ainda pior. Facebook acabou por criar o maior mercado de media massificado, voltando aos tempos em que só tínhamos televisão, um canal, e éramos forçados a levar com publicidade de quem tinha orçamentos sem fim.

Ainda existe quem argumente que se criar conteúdo de interesse, não vai necessitar de pagar e que tudo isto vai fazer com que as marcas, e os indivíduos, criem conteúdo de grande qualidade. Falta só mesmo é a definição de conteúdo de grande qualidade. É que devem estar mesmo distraídos. O conteúdo que reina online é quase sempre polemico, cómico (mesmo que questionável), político, religioso ou desporto, nomeadamente, em Portugal, futebol.

Para quem não seja desta opinião, peço que expliquem como é que o melhor conteúdo pode alguma vez reinar quando o ónus da responsabilidade de determinar a relevância é pré definida pelo algoritmo do Facebook, com os seus próprios interesses, em vez da relevância criada pela comunidade.

Na sua defesa, Philip Zigoris, um engenheiro responsável pela publicidade no Facebook, escreveu em Outubro de 2012 que Facebook “monitoriza constantemente o numero de likes, comentários” e reações a esses posts pagos. Ou seja, pague e se as pessoas “gostarem”, pode até atingir mais gente. Isto se o seu conteúdo for palha, claro. Mas Philip não abordou a queda no trafego nas páginas das marcas. Mesmo com um constante aumento de seguidores, a interactividade não aumentou, e na maioria dos casos caiu e não foi pouco.

O que eu não percebo é porque é que Facebook não cobra às empresas para estarem presentes na sua comunidade de mais de mil milhões de utilizadores. Não somente em publicidade, mas sim para ter uma conta, com mais produtos a ser cobrados pela sua utilização. Conta simples, um valor. Quer eventos? Alugue o modelo de eventos. Quer vídeo? Alugue o modelo de multimédia. Alas, um modelo freemium. Quem não iria pagar? Com acesso a mil milhões de utilizadores? Com mais de 700 milhões acederem através de mobile?

Mesmo que só os grandes e interesseiros pagassem, pelos menos nós, utilizadores, podíamos determinar a nossa própria relevância, e nas piores/melhores hipóteses, ignorar as marcas irrelevantes. As marcas sim é que poderiam levar com o Edgerank.

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