in Tecnologia

Numa altura em que nos preocupamos mais com as trivialidades do nosso quotidiano do que assuntos que possam vir a impactar a nossa vida num futuro próximo, um americano de 27 anos largou uma autêntica bomba atómica e a maioria provavelmente não quer saber.

Mas um estudo da Pew Research revela que os Americanos preferem a luta contra o terrorismo mesmo que isso implique perderem a sua privacidade. Parece que a estratégia do governo Americano de continuar a utilizar o medo como pretexte para fazer o que bem intende, está segura por enquanto.

Ao contrario de Bradley Manning que decidiu confiar a sua vida em Julian Assange, passando-lhe quase 1 milhão de documentos secretos para serem publicados através do Wikileaks, Edward J. Snowden escolheu um caminho muito diferente.

Snowden contactou Glenn Greenwald, um escritor que especializa em direitos cívicos e que escreve para o jornal The Guardian; Laura Poitras, uma realizadora de vídeo e especialista em surveillance; e Ewen MacAskill, um jornalista do jornal The Guardian. As instruções eram claras – ir a um hotel em Hong Kong e esperar que aparecesse alguém a segurar um rubik’s cube.

Nenhum dos três imaginou o que lhes esperava – um jovem, demasiado novo para ter acesso a informação tão sensível, com um discurso altamente coerente e pensado. Vale a pena ver a entrevista que captaram.

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No inicio, o governo Americano seguiu à letra a estratégia implementada e testada para lidar com este tipo de fuga de informação. Rotularam de imediato Snowden como traidor do povo Americano e iniciaram uma investigação imediata entrevistando familiares e amigos, enquanto negavam tudo.

Mas Snowden não é um Manning, um ingénuo e desprevenido, mal equipado para o que iria enfrentar. Snowden não deixou qualquer rasto online ou offline, protegendo aqueles de quem mais gosta, munindo–os da total ignorância – nem a namorada sabia o que Snowden preparava, muito menos para onde iria. Só Snowden sabia que nunca iria puder voltar à vida que deixava – tudo em nome do seu dever cívico.

Mas Snowden conseguiu muito mais que “simplesmente” alertar o povo para o  facto que o seu governo espiava em todos, em todo o lado, utilizando todos os meios tecnológicos sem qualquer necessidade de se justificar. E foi esse o ponto de viragem – verificar que todo este poder estava nas mãos de uns poucos para fazerem o que quisessem, imunes as possíveis consequências – carta branca para usar e abusar de todos os direitos estabelecidos em 1791.

Mas não foi só o governo que entrou em gestão de crise – as maiores empresas de tecnologia foram forçadas a responder às alegações explicitas e implícitas, algumas que surgiram na ausência de factos – como o caso da Google que foi forçada a cuidadosamente explicar que não tinha nenhuma “porta aberta” para que a NSA obtivesse dados quando e como quisesse.

Mark Zuckerberg publicou no seu mural no Facebook uma total negação de qualquer envolvimento neste projeto – PRISM – em que supostamente a NSA tem acesso a todos os dados das maiores empresas de tecnologia e comunicações.

Mas uma das maiores empresas de telecomunicações, a Verizon, foi forçada admitir que todos os seus dados, ou seja as dos seus clientes, incluindo todas as comunicações, estavam disponíveis para que o governo Americano usasse e abusasse desse acesso.

Os primeiros documentos a serem partilhados com os jornalistas, muito antes de saberem com quem falavam, foram 20 documentos que incluíam apresentações do programa PRISM, uma programa que permite à NSA acumular informação sobre estrangeiros a viver fora dos Estados Unidos, utilizando serviços como a Google.

Ainda é muito cedo para termos todas as informações e isto é assumindo que alguma vez isso possa vir acontecer. Agora ficamos com algumas declarações cuidadosamente preparadas para responder às alegações, enquanto não respondem a nada – uma postura típica da política que parece ter contagiado as maiores empresas de tecnologia. Nada de estranhar, se verificarmos que todas estão sujeitas a serem investigadas novamente pelo governo e impedidas de fazer o que querem – ou seja recolher informação nossa para ser utilizada sem o nosso consentimento e conhecimento – tudo isto para termos uma melhor forma de encontrar amigos de amigos que possam vir a ser nossos amigos no futuro.

“When required to comply with these requests, we deliver that information to the US government — generally through secure FTP transfers and in person,” Google porta-voz Chris Gaither

“We refuse to participate in any program — for national security or other reasons — that requires us to provide governments with access to our systems or to install their equipment on our networks,” Chris Gaither

Em vez de darem acesso direto, uma alternativa parece ter sido encontrada, conforme o Post:

“[C]ollection managers [can send] content tasking instructions directly to equipment installed at company-controlled locations,” e “From their workstations anywhere in the world, government employees cleared for PRISM access may ‘task’ the system and receive results from an Internet company without further interaction with the company’s staff…”

Se acham que tudo isto só acontece do outro lado do Atlântico – think again… e não pare de pensar pois um dia, você poderá ser afectado, mesmo que não faça nada “ilegal”. Reputação por associação é tão perigoso como o acto de cometer uma ilegalidade.

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