in Tecnologia

Em 1999, nasceu um filme de culto, que com tempo seria considerado pela Empire Magazine como um dos 10 melhores filmes de sempre – Fight Club. No filme, Edward Norton e Brad Pitt criam um clube de combate, uma forma de lidar com a monotonia da vida. O ponto alto do filme é quando eles estabelecem as regras deste novo clube: “The first rule of fight club is you do not talk about fight club”.

Catorze anos depois, voltámos ao Fight Club, desta vez, uma criação da NSA (National Security Agency) onde os protagonistas não são indivíduos decepcionados com a monotonia da sua vida pessoal e profissional, mas sim empresas responsáveis pelos seus dados.

PRISM NSA

É que toda a legislação e mecanismos de suporte, criados após o 11 de Setembro, acabaram por substituir os direitos do cidadão pela aparente necessidade dos proteger a qualquer custo. Esta foi sempre uma tática do antigo presidente Jorge Bush Jr. que fez com que permanecesse na Casa Branca durante 8 anos independentemente das suas constantes calinadas. Este é o resultado de uma eficaz gestão de sentimentos, nomeadamente o medo.

PRISM, o programa que a NSA criou para espiar em todos, independentemente de justa causa, teve que ter obrigatoriamente ajuda da maioria das empresa de tecnologia e de comunicações. Mas porque é que ninguém negou este acesso? Porque quem o fez no passado, pagou o preço.

Joseph P. Nacchio era CEO da QWest quando lhe chegou um pedido para dar acesso a escutas dos seus clientes. Após ter consultado com os advogados da empresa, Nacchio recusou e o resultado foi rápido e doloroso. A NSA cancelou uma série de contratos com a QWest no valor de vários mil milhões de USD, enquanto o DoJ (Department of Justice) levou o para tribunal para lhe processar por insider trading.

Se acreditarmos que Hollywood tem uma forte ligação com o governo Americano, já devíamos ter estado preparados para a noticia bombástica. Basta ver a série Person Of Interest para perceber a dimensão das ferramentas disponíveis para quem nos queira monitorizar 24/7. Mas muitos esquecem-se das implicações dado que a série concentra-se no lado positivo, ou seja no bilionário que se junta ao ex-colaborador da CIA para ter acesso a dados que ajudam a prevenir crimes nos Estados Unidos. O lado negro raramente aparece, e quando acontece, os heróis ganham novamente. God Bless America.

Continuando no tema de Hollywood, não nos podemos esquecer do filme Minority Report, onde Tom Cruise faz parte de uma equipa de policias cujo o objectivo é prever o crime para que o possa travar. Para todos os efeitos, a NSA parece ter esse mesmo objectivo, algo que justificam ser necessário após os ataques às torres gémeas em Nova Iorque.

Um pouco como o fight club, o problema reside na falta de auditoria dos processos e de quem está envolvido. Muito que se acredite que no inicio, os objectivos sejam legítimos, com o passar do tempo, facilmente nos esquecemos do porquê, e com os novos lutadores, com os seus próprios interesses, a linha ténue entre bom e mau, fica cada vez menos evidente.

Para as empresas que estão envolvidas, ninguém pode falar. As consequências são tão perigosas que a maioria das empresas de tecnologia escolheram colidir e dar uma resposta tão clara como vaga – não dão “acesso directo” à NSA.

Até o Eric Schmidt, executive chairman da Google, já admitiu que não podemos confiar na Google, escolhendo não utilizar mais Gmail e Android, escolhendo o Blackberry para evitar que no futuro não seja novamente enfrentado com o seu passado digital incriminatório.

A ironia é que a maioria dos cibernautas não utiliza os diferentes mecanismos disponíveis para encriptar os seus dados, acreditando que se não tivermos nada a esconder, porque faze-lo? Quem utiliza encriptação? Os maus da fita, claro. Aqueles que supostamente a NSA procura apanhar. Mas a maioria está errada em acreditar que só os que escondem algo devem se preocupar.

Em Dezembro de 2009, Harvey Silvergate, autor do livro Three Felonies a Day, revelou que no caso dos americanos, a maioria de médicos, contabilistas, gestores, advogados e muitos outros, foram perseguidos pelo governo americano independentemente de não terem conhecimento das leis que aparentemente “violavam”.

“Three Felonies a Day brings home how individual liberty is threatened by zealous crusades from the Department of Justice. Even the most intelligent and informed citizen (including lawyers and judges, for that matter) cannot predict with any reasonable assurance whether a wide range of seemingly ordinary activities might be regarded by federal prosecutors as felonies.”

Como todos temos telhados de vidro, uns mais frágeis que outros, a indiferença não é opção pois colocamos em risco o nosso próprio futuro. Futuro esse que se define na interpretação dos nossos atos e no que dizemos, sem qualquer contexto ou pretexto. O pior? É que a Internet não esquece – algo que nunca existiu no passado.

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