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Se não sabe se tem predisposição para ter “tédio das redes sociais”, veja alguns dos sintomas


Todas as profecias sobre o fim do mundo parecem ser muito mitológicas mas algumas grandes mudanças estão prestes a acontecer ou estão já a ter lugar no cenário mediático social por estes meses.

De acordo com o que tinha vindo a dizer no último ano, o cenário mediático social está a mudar para uma maior consciência do utilizador sobre políticas de privacidade e gestão de conteúdos. As mudanças constantes nas redes, como o Facebook, despertaram a atenção de muitos utilizadores, impelindo-os a votar e a escolher, tendo uma palavra a dizer tanto no modo como a sua informação pessoal está a ser intercambiada nos sistemas de gestão de informação e no modo como as redes evoluem, cresces e se reconfiguram. Algum deste comportamento resvala, felizmente, para a “vida real”, com maior participação cidadã em assuntos políticos: parámos de criticar os políticos e as suas políticas e começámos a agir. Na rua ou através de voto expressivo, para fazer com que a nossa vontade conte.

Está a acontecer o mesmo no cenário mediático virtual. Às vezes, deixamo-nos iludir e seguimos boatos puros – o hipermédia frequentemente torna a mensagem em falhanços super-virais, devido à sua velocidade de partilha – mas quando abrandamos e realmente lemos sobre qual é, realmente, o assunto, tornamo-nos e-cidadãos letrados. E-Cidadãos letrados tendem a ter um entendimento diferente dos cenários mediáticos e sociais, e, cada vez mais, passam a ter uma opinião respeitada.

Apesar do aumento da indústria de smartphones, que tornou mais fácil de aderir e partilhar conteúdo nas redes sociais, vai ser cada vez mais difícil criar a próxima grande inovação. Pequenas mudanças incrementais serão feitas neste mercado, com muitos períodos de teste e erro, ainda mais do que quando não tínhamos unidades de I&D. A pressão do mercado e algum marketing dúbio e enganador farão com que produtos que se tornam rapidamente obsoletos sejam despejados no mercado.

Dieter Rams, reconhecido designer industrial, com um papel preponderante na Braun, era um verdadeiro evangelizador da não obsolescência, considerando o obsoleto como um crime para o design, enquanto defendia a ideia de desenvolvimento sustentável. Dieter Rams também desenhou mobiliário para a Vitsœ, que defende a sustentabilidade no design e a criação de peças que durem mais. Os produtos da Vitsœ ainda são vendidos, usados e admirados, devido ao seu longo ciclo de vida, planeado desde o início, e baseado na usabilidade. Neste cenário, não creio que a mesma coisa aconteça com os smartphones e muitos dos gadgets do século 21, devido à urgência do consumidor de adquirir o que é “recente”, “ligeiramente melhor” ou “hip”, cedendo a um impulso consumista, e não às necessidades reais.

A indústria dos smartphones e gadgets trabalha segundo uma política de “obsolescência planeada”: considerem o lançamento do Iphone 2, que, segundo alguns rumores, estaria pronto para lançar ao mesmo tempo que o Iphone 1. Ou o Iphone 1, que já foi considerado peça de museu. Esta obsolescência leva os consumidores ao mercado a cada 6 meses – de alguma forma, assemelha-se à indústria da moda, tornando todos os gadgets em acessórios-tendência – para adquirir o gadget mais recente, para validação social.

Lado a lado, a evolução incremental das redes sociais é feita sem “rede de segurança”, com demasiados erros que comprometem a privacidade dos utilizadores, e, na maior parte das vezes, sem detecção de necessidades pelos utilizadores, o que nos leva a concluir que tanto as redes sociais como a indústria de smartphones trabalha numa estratégia viciada de obsolescência planeada.

E se os e-cidadãos letrados irrompessem no reconhecimento destes padrões nestas indústrias? Não precisamos ter um post-doc para ser um e-cidadão letrado, só temos que prestar atenção – e, de alguma forma, ser capaz de “ver de fora”. Se o fizermos, o mais provável de acontecer é começarmos a sentir-nos entediados em relação às redes sociais que eventualmente usamos. O factor de atracção das redes sociais era frequentemente resumido como “está toda a gente lá”. Mas se pensarmos numa festa, por exemplo, onde toda a gente exibe os seus diamantes mas onde ninguém realmente fala, não nos sentiríamos aborrecidos? Do meu ponto de vista, é exactamente o que acontece com as redes sociais.

Se não sabe se tem predisposição para ter “tédio das redes sociais”, veja alguns dos sintomas.

Um Utilizador Entediado liga-se às redes pela manhã, navegando através dos news feeds ou updates, verificando alguns estados e posts, e até verificando algumas páginas em que tem genuíno interesse. Está quase todo o dia online, mas raramente interagem. Quando ficam offline, não mantêm o smartphone ligado às redes. Sempre que voltam a ligar-se, abrem separadores do browser para o email e as redes. Costumam ter dezenas de notificações, mas, depois de uma vista de olhos rápida, abrem apenas uma ou duas. Começam a remover amigos e a eliminar “gostos” em páginas, e até criam filtros e listas. Partilham somente para marcar posts ou páginas que viram. E já pensaram em fechar todas as contas de presença social mais do que uma vez. Revê-se nestes sintomas? Então pode sofrer de Tédio das Redes Sociais.

Os Utilizadores Entediados poderiam ter um papel de relevante importância no panorama mediático social, se fossem combinados com E-Cidadãos Letrados, e isto poderia realmente provocar uma mudança. Estes utilizadores ficam cada vez mais cansados desta interacção social virtual e irão, eventualmente, abandonar as redes sociais ou criar as suas próprias alternativas – outras social apps ou redes privadas – ou fazer uma grande mudança do online para o offline. Isto também pode acontecer porque os utilizadores se sentem vigiados – não só pelas estruturas governamentais mas – pelas redes sociais. Coisas tão recorrentes como violações de privacidade no Facebook, mudanças nas políticas de privacidade e, por exemplo, o anúncio dos direitos sobre imagens que o Instagram protagonizou, fazem com que os utilizadores comecem a sentir-se desconfortáveis quando partilham qualquer tipo de informação – seja privada ou não – nestas redes.

Apesar de o Facebook e o Instagram terem retirado algumas das grandes propostas de mudança, depois de as apresentarem a voto público ou não, e pensarem que os utilizadores os terão perdoado, os utilizadores começam a perceber como as redes sociais podem manipular e usar a sua informação privada. E começam a suspeitar e a “abrir os olhos” para o poder da obsolescência planeada: de um modo diferente, as redes sociais apresentam grandes mudanças ao público e esperam por feedback e reacções, e depois jogam o jogo do “polícia bom/polícia mau”, substituindo estas medidas de certo modo exageradas por outras não tão extremas, e desculpando-se aos utilizadores.

Parece-me que esta estratégia não será bem sucedida num período de médio prazo, especialmente para os Utilizadores Entediados/E-Cidadãos Letrados. Assim como tendemos a parar de comprar coisas de que não gostamos, parar de votar num político que não cumpriu as suas promessas de campanha e parar de ver pessoas que nos causam repulsa, as redes sociais serão castigadas pelo seu comportamento – nem sequer o Pai Natal os vai recompensar – e, eventualmente, estes utilizadores vão começar a evitar as redes e a tratar de outros assuntos e questões na vida real. Isto poderá criar uma crise para algumas marcas que já investiram tanto tempo e conteúdos nas redes, nos últimos 3 anos, e pode levar a uma migração massiva para fora das redes, e uma diminuição do interesse dos anunciantes na publicidade online.

Mesmo sendo um cenário possível, isto não irá acontecer nos próximos 2 anos. Da mesma forma que desenvolvemos um hábito, tendemos a resistir desistir desse hábito, mesmo que não lhe reconheçamos utilidade. As redes sociais podem impedir o Tédio das Redes Sociais se fizerem uma mudança radical, comprometendo-se com a segurança de informação e relevância, focando-se em conteúdo gerado pelo utilizador, com maior respeito por estes e fornecendo uma estrutura diferenciada para as interacções sociais (além dos utilizadores, grupos, boards, pins, likes, tweets, shares e apps) que possa pôr o mundo realmente a começar uma conversa. E isso pode pôr o mundo em networking real.

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  • Tédio das Redes Sociais » Rita Falcão Monteiro

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