in Opinião

Inês Santos SilvaGuest post da Inês Santos Silva, Responsável por alguns dos mais importantes projetos e iniciativas de empreendedorismo – Startup Tour, Startup Pirates, Startup Exchange Program, e muito mais.  

Em 2011, numa das minhas muitas deambulações pela internet, descobri a Singularity University, uma universidade não certificada que promove um programa de Verão focado no ensino de tecnologias exponenciais com o objetivo de resolver os principais problemas da humanidade. Ao ler isto fiquei intrigada! Mas afinal o que são tecnologias exponenciais? Como podemos resolver problemas como a pobreza ou a fome com tecnologia? Quais são os objetivos desta organização?

Dois anos passados, mais alguma pesquisa e algumas conversas com antigos participantes do programa, hoje encontro-me na Singularity University a frequentar o Graduate Studies Program, um programa de 10 semanas que tem por objetivo a criação de empresas/projetos que tenham impacto positivo em mil milhões de pessoas nos próximos 10 anos. Ambicioso?! Sem dúvida! Mas a verdade é que ao longo das 8 semanas que já passei aqui, não só nos mostraram que é possível, mas como também é necessário. Necessário?! Deixem-me explicar porquê. Mas primeiro vou explicar o que tem acontecido desde o dia 15 de Junho.

Cheguei a Mountain View na Califórnia a meio de junho. Depois de apenas um mês de preparação chego a esta parte do mundo pela primeira vez, sem conhecer ninguém e com imensas expectativas. Toda a gente me dizia que estas seriam as 10 melhores semanas da minha vida, mas tinham dificuldade em explicar porquê. Felizmente agora já sei!

A Singularity University está localizada no Nasa Research Park. Aqui faz-se investigação sobre, por exemplo, a possibilidade de existir vida ou água em Marte. Aqui criam-se tecnologias de ponta que são utilizadas nas principais missões da Nasa. É aqui que o Presidente Obama aterra no Air Force One quando vem à Califórnia. Foi um espaço peculiar que encontrei e que definiu o que poderia esperar nas 10 semanas do programa.

As primeiras 5 semanas foram focadas em homogeneizar o conhecimento da turma. Somos 80 pessoas dos 22 aos 50 anos, de 35 países diferentes com experiências igualmente diferentes. Desde cientistas a empreendedores, escritores de ficção científica a investidores passando por ativistas dos direitos humanos, médicos e designers industriais.

Assim, tivemos aulas nas áreas de bioengenharia, computação, ética, robótica, empreendedorismo, neurociência etc. Conhecemos astronautas, grandes empreendedores, visitamos empresas como a Google ou a Autodesk, conhecemos aquele que é considerado o melhor investidor do mundo e até conhecemos o primeiro empregador do Steve Jobs. É inacreditável o acesso que temos tido a pessoas e projetos fantásticos, nas mais diversas áreas. É extraordinário poder almoçar com um astronauta que fez 3 viagens espaciais enquanto ele descreve as sensações de estar no espaço. Inesquecível.

Passadas estas primeiras 5 semanas e depois de já todos acreditarmos que tudo, mas tudo é possível, começamos a pensar em projetos que queríamos desenvolver. A menos de uma semana da apresentação final temos equipas a trabalhar em sequenciação de ADN, novos aparelhos médicos, novas formas de participação dos cidadãos nas decisões políticas, diminuição da discriminação por género e criação de carne de forma artificial, entre outras. No total temos 17 equipas super motivadas para usar o conhecimento que foram adquirindo para resolver problemas como a fome, educação, energia, ambiente, segurança e pobreza, através do uso de tecnologias.

Apesar do resultado do programa e dos projetos ser imprevisível, a experiência que temos adquirido aqui ajuda-nos a ver o mundo de forma diferente. Dá-nos um foco e uma ambição de trabalharmos nos problemas sobre os quais vale realmente a pena trabalhar e criar empresas sustentáveis para resolver esses mesmos problemas. Temos à nossa frente grandes desafios incomparáveis a quaisquer outros que já tivemos que resolver. As alterações climáticas e o consequente aquecimento global, o crescimento exponencial da natalidade e a escassez de combustíveis fósseis vão obrigar a soluções criativas, tecnológicas, escaláveis e urgentes. Não querendo focar demasiado neste tópico, acredito que os próximos 20 anos serão anos de transição. A nossa sociedade, sistemas políticos, geografias e acesso a informação mudarão muito. O impacto de novas tecnologias será mais real do que nunca e viveremos um processo de adaptação violento.

Numa nota mais positiva e pessoal, para além de ter cumprido o objetivo de ser aceite na Singularity University, realizei o sonho de vir a Silicon Valley, a meca do empreendedorismo. As grandes empresas tecnológicas dos últimos 20 anos nasceram e estão localizadas aqui. Por isso, e devido a isso, existe aqui uma comunidade vibrante de empresas de grande e pequena dimensão que se entreajudam e crescem juntas. Depois de muito ter ouvido falar deste local “mágico”, posso dizer que ainda é melhor do que tinha imaginado. Encontramos aqui uma cultura única de competição e colaboração. Aqui as empresas competem ferozmente por investimento, por quota de mercado e pelo domínio mundial da sua área. No entanto, também se ajudam e apoiam. Partilham ideias, dão feedback, partilham contactos e fazem o possível para o ecossistema crescer. É um ambiente diferente e também irreplicável. Vemos com frequência países ou cidades afirmarem que estão a construir o próximo Silicon Valley. Em Portugal, já vimos algumas afirmações desse género. Mas a verdade é que passando algum tempo em Silicon Valley nos apercebemos que é impossível. Silicon Valley nasceu há mais de 40 anos, com uma empresa chamada Fairchild que depois deu origem à Intel que depois deu origem a muitas outras. Cresceu como uma comunidade livre e focada no desenvolvimento comum e foi capaz de atrair pessoas extraordinárias de todo o mundo que atrás de um sonho construíram empresas como a Apple, a Google, a Intel, a HP, entre milhares de outras.

Volto em breve para Portugal. Estas 10 semanas, foram sem dúvida as mais marcantes da minha vida. Pela intensidade, pelo que aprendi, pelas pessoas que conheci e pelos novos sonhos que desenvolvi. Volto sem dúvida uma pessoa diferente e com vontade de colocar em prática e partilhar tudo o que tenho aprendido aqui.

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