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Em Abril de 2012, já tínhamos escrito que a Microsoft iria ter que comprar a Nokia, e hoje ficámos a saber que é isso mesmo que vai acontecer. Não é grande surpresa, ao contrario da noticia que Steve Ballmer está de saída, e para breve.

A compra/venda da Nokia é tão óbvio enquanto irracional. Óbvio porque a Google comprou a Motorola e a Nokia continua a ser a única empresa que tem tido algum sucesso, mesmo que moderado, na venda de smartphones com o sistema operativo da Microsoft.

Irracional porque a Nokia deveria ter mantido a opção de lançar smartphones com o sistema operativo Android. Na realidade a Microsoft não teria outra opção se não aceitar e conviver com Android na Nokia. Desta forma, a empresa com mais de 150 anos, não estaria agora a ser vendida por $7.2 mil milhões de USD à Microsoft, que acabou de assumir publicamente que a sua nova tentativa de entrar no mercado dos tablets, falhou.

Esta compra, uma espécie de rebuçado envenenado, deixado por Ballmer no seu ultimo ano de CEO, vai se revelar, mais tarde ou mais cedo, algo a resolver para o novo CEO da Microsoft.

Basta só ver o que se está a passar com a Google e Motorola. Em vez de lançarem um smartphone verdadeiramente revolucionário, algo possível por parte da Google, o Moto X acaba por ser um smartphone normal com um preço demasiado alto, comparado com o excelente Nexus. E em vez de vende-lo diretamente, Google é obrigada a sujeitar os seus fãs a smartphones carregados de lixo (apps) das empresas de telecomunicação, para não falarmos nas habituais condições contratuais.

Microsoft vai ter que fazer o mesmo já que conseguiu irritar profundamente a maioria dos seus parceiros que fabricavam computadores com o sistema operativo Windows. Muitos analistas acreditam que a quebra acentuada nas vendas de PCs é em parte a culpa do novo Windows 8. Eu acredito.

Ambas as empresas, Microsoft e Google, procuram o modelo da Apple  – hardware & software. Mas já deviam ter aprendido que não se pode agradar a todos. Apple tem controlo absolto do hardware e software e vende diretamente os seus smartphones – basta ir a uma Apple Store e comprar um iPhone sem contrato.Mas a opção de se fechar também lhes traz alguns desafios, nomeadamente uma quebra de marketshare.

Google luta por uma plataforma aberta, independentemente de ter criado algo semi-aberto; não consegue ter todos os smartphones actualizados com o sistema operativo mais recente; tem uma plataforma com elevados riscos de segurança para os seus utilizadores; e tem que agradar os seus parceiros não podendo arriscar uma alienação dos mesmos.

A Microsoft tem uma plataforma semelhante à da Apple, ou seja fechada, mas ao contrario da Apple, necessita de todos os seus parceiros para continuar a vender os dois produtos que correspondem a 70% das suas receitas – Windows e Office.

O valor do negócio tem também levantado algumas questões – é que o valor de venda é equivalente a 25% do valor das vendas da Nokia do ano passado. Mas a Nokia tem perdido terreno e continua com lucros demasiado baixos provavelmente criando algum pânico por parte dos acionistas. Bom negócio ou mau negócio para a Microsoft?

É verdade que no presente mercado, a integração vertical é fundamental para garantir a sustentabilidade no mercado, mas Ballmer tem levado a Microsoft para mercados com margens baixas, território esse que acaba por ser desconhecido para uma cultura como a da Microsoft, assente no mercado B2B com margens altas.

Não podemos esquecer que 70% das receitas da Microsoft vem de software que tem mais de 2 décadas de existência – algo inédito ainda que arriscado. A sua mudança para a Cloud é evidentemente uma prioridade mas iremos ter que esperar para ver se os clientes da Microsoft vão ou não adaptar-se (ou até se querem esse serviço de subscrição).

A ironia é que uma das salvações da Microsoft é o facto que os seus clientes tipicamente levam muito tempo para atualizar os seus sistemas operativos, ao contrario da Apple que cada vez mais vê os seus clientes a atualizar o seu sistema operativo.

Dado que o Windows 8 foi um total fracasso, o impacto é minimizado pelo facto que a maioria dos clientes da Microsoft não “necessitam” de atualizar já os seus sistemas, podendo esperar pela novo sucessor à versão actual reminiscente do antigo Vista.

A venda também contempla as patentes que a Nokia detêm mas independentemente da Nokia ter reduzido o seu negocio de networks e navegação, o fabricante finlandês continua em segundo lugar na lista de fabricantes de telemóveis mundialmente, ultrapassando a Blackberry.

O problema é que a Nokia não aparece nos top 5 fabricantes de smartphones do mundo, algo que representa presentemente o mercado com maior crescimento onde Android e iOS têm ambas 90% do mercado.

Seja como for, só espero que não estejam à espera que a Nokia consiga fabricar novos tablets pois o problema nunca esteve no hardware do Surface mas sim no software e na aposta da Microsoft de criar um sistema operativo para o desktop que seria utilizado no tablet sem que se pudesse utilizar os mesmos apps em ambos os dispositivos. Confuso? Totalmente.

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