in StartUps

Estamos perante a maior e provavelmente mais longa recessão de sempre. Pior, ninguém vê a luz ao fim do túnel, quer economistas e políticos, quer o povo que tem constantemente que viver com uma austeridade impossível de aguentar.

Podemos dizer que foi a culpa dos bancos, investidores e até aqueles que pediram empréstimos sem qualquer certeza, ou pensamento, em como iriam pagar a divida. Aliás, nunca foi referido como divida – era um pagamento em prestações “suaves”.

Quando os mercados caíram a pico, fomos apresentados ao culpado cujo nome ficou conhecido como ativo tóxico – investimentos complexos em que eram dadas em garantia de outras dívidas mais fluidas, maiores e mais distantes do valor original do imóvel. Ou seja, algo que valia 100 passou a ter um valor por defeito de 1000 simplesmente porque acreditaram que o que sobe, continua a subir…

Estranho que pareça, temos uma memória muito curta e uma incapacidade de perceber que estamos a cometer o mesmo erro, simplesmente porque é noutro sector – supostamente será diferente.

Não vou utilizar o termo “bubble” pois isso muitas vezes implica que seja feita uma comparação com o primeiro dot.com. Na realidade, vivemos num mundo diferente, onde a esperança (1997-2000) de interconectividade é hoje uma realidade – mobile, local, global e todos os outros termos – menos social media pois os gurus decidiram não gostar mais do termo dado que já existiam muitos neste, inicialmente restrito, clube de experts. Achei piada ao artigo Why Are So Many Social Media Managers Dipshits?

O mundo de startups, VCs e Fundos de Investimento, inspirados pela “terra prometida” – Silicon Valley – inventou a sua versão de ativos tóxicos. Um investimento inicial de 25,000 € por uma percentagem de equity inicia muitas vezes o ciclo de especulação. Mais organizado que o passado, as fases diferentes em que os investimentos (complexos em que eram dadas em garantia de outras dívidas mais fluidas, maiores e mais distantes do valor original do imóvel) são efectuados diluindo normalmente a posição de quem iniciou a empresa – os fundadores.

Rodada após rodada, o valor da mesma percentagem que valia 25k, aumenta e muitas vezes exponencialmente – a lógica? Utilizadores, supostamente a moeda atual que promete converter-se em receitas. Receitas essas que raramente estão fundamentadas em pressupostos de negocio. E quando se chega ao fim e já mais ninguém quer investir? Os Americanos ensinaram-nos a celebrar o fracasso. Que raio de conceito esse.

A promessa é apresentada de várias formas. Temos os Freemiums que são aqueles que oferecem o seu produto prometendo aos investidores e acionistas que mais tarde vão facilmente cobrar por extras ou por serviços premium (a definir). Ou eles vendem cocaína ou heroína, ou então têm pouca probabilidade de convencer os seus utilizadores a pagar por algo que assumem ser gratuito. Especialmente quando esses serviços premium são tudo menos premium.

Quando isso corre mal, tiram-se algumas funcionalidades ou atributos que fazem parte do core do produto e/ou serviço. Chantagem que quase sempre acaba mal.

A mais antiga e presentemente ineficaz estratégia de monetização é aquela que baseia-se na premissa que os anúncios são a forma de gerar as receitas necessárias, não só para pagar os custos que crescem exponencialmente com o crescimento de utilizadores, especialmente para aqueles que trabalham com imagem e vídeo, bem como para dar face ao compromisso assumido com os investidores de um retorno estupidamente acima de qualquer outra alternativa.

E chegamos assim, para quem teve pachorra de ler até aqui, à noticia que o CEO do Snapchat, Evan Spiegel, rejeitou uma oferta em cash de $ 3 mil milhões de USD… sim $ 3 mil milhões de USD. Mas a empresa Chinesa de e-commerce Tencent Holdings estava preparada para pagar à empresa de 2 anos, $ 4 mil milhões de USD – sem receitas e muito menos um modelo de negocio.

Até consigo compreender (vamos fingir) os empreendedores que recusam vender o seu bebé por qualquer valor, mas quando Evan Spiegel prefere esperar até 2014, algo está mal – já não é o não querer vender a sua alma mas sim acreditar que Las Vegas é o ideal local para fazer negócios. É um risco enorme.

Aceito que ele tenha os dados necessários para tomar esta decisão mas o valor de um negocio é baseado no valor que um comprador, ou mais, esteja preparado a pagar. Hoje pode ser $ 3 mil milhões de USD amanhã pode ser € 10 milhões.

Estes negócios são sensíveis ao momento da oferta.

Kevin Systrom compreendeu isso quando vendeu Instagram ao Facebook por $ 1 mil milhões de USD em 2012. David Karp também percebeu que estas oportunidades normalmente são únicas, vendendo Tumblr a Yahoo por $ 1.1 mil milhões de USD. Outros também fizeram os negócios da sua vida – Alibaba ($ 1.1), Yammer ($ 1.2), PopCap ($ 1.3), PayPal ($ 1.5), YouTube ($ 1.65), DoubleClick ($ 3.1), aQuantive ($ 6.4) e Skype ($ 8.5) – valores em mil milhões de USD.

E nenhum destes tinham um serviço com um futuro tão inconstante como o de Snapchat. Só o tempo dirá se Evan Spiegal se vai juntar aos clube dos arrependidos que inclui os 3 fundadores de Groupon, Andrew Mason, Eric Lefkofsky e Brad Keywell, que rejeitaram uma oferta de $ 6 mil milhões de USD por parte da Google. Ouch…

Por agora, podemos ficar a observar as avaliações ridículas que vão crescendo com cada investimento em cima de investimento, sem garantias e muito menos razão de ser.

Provavelmente foi isso que levou um programador a perguntar-me se eu estaria disposto a investir € 1 milhão de Euros por 10% da sua (ainda não formada) empresa que tem uma rede social que é o Twitter, Facebook, LinkedIn, etc actual – tudo junto. Eu? Uma futura empresa que supostamente vale € 10 milhões de Euros hoje?

Mas no meio de toda esta ilusão, ainda existem alguns startups (empresas) lideradas por pessoas com cabeça. Em vez de dominarem o mundo ou morrerem na praia a tentar,  a Boonzi surpreendeu o júri do Lisbon Challenge quando respondeu que preferia ir passo a passo, com receitas e um crescimento sustentado, em vez de invadir o mundo – go BIG, pensavam os VCs – aqueles que fazem 2 investimentos por ano.

Eu investia em Boonzi. Poderia não ficar bilionário mas também não perdia o meu dinheiro – pelo contrario.

Fotografia: Mark Wilson / Getty Images

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