in Social Media

“Acaba de ser lançado o Sitestar.pt, um concurso promovido pelo DNS.PT (responsável pela gestão e operação do ccTLD.PT), DECO e Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor. Esta iniciativa desafia os jovens estudantes a desenvolverem website ou blogues em português. O intuito é promover a literacia digital.” Lindo…

Se por um lado acho que uma iniciativa para melhorar o futuro desta geração é fantástico, por outro não compreendo esta iniciativa especifica. Desde quando é que a DECO, associação para a defesa do consumidor, promove uma iniciativa para “promover a literacia digital”? As reclamações enviadas são assim tão incompreensíveis? Estão com dificuldades em perceber o que o consumidor “iletrado” escreve?

Não sou contra este tipo de iniciativa – pelo contrário – dedico uma hora por dia, no mínimo, a manter o meu blogue ativo. Mais, acredito que na era de pura partilha, vai faltar conteúdo original para partilhar. Mas irrita-me estas iniciativas “promovidas”, sem se debruçaram sobre o assunto..

Primeiro, o “tag line” do concurso destrói por completo a iniciativa:

“concorre e faz-te uma estrela!”

Mas afinal a iniciativa é para promover a literacia ou para incentivar o narcisismo, o egocentrismo e a palha já produzida online, nomeadamente pelos YouTubers que agora são promovidos por algumas marcas? É que criar um blogue é fácil. Mante-lo ativo e relevante é duro, especialmente quando o retorno é intangível. Será que o problema é que blogging não é sexy, mas a promessa do estrelato já é?

Assumimos que os adolescentes e universitários não querem aprender mas sim concorrer por prémios miseráveis? E depois do concurso? Voltamos às reclamações ressabiadas escritas no acordo ortográfico de cada um?

[highlight type=”red”] Disclaimer: para quem não costuma ler o Tudo Mudou, acho melhor explicar que não sou dos melhores exemplos de quem escreve bem em Português – não tenho editor e vivi demasiados anos fora de Portugal para conseguir escrever sem erros – têm que existir desvantagens em ser bilingue… Avisados.[/highlight]

Voltando à dita iniciativa, verifico que o concurso destina-se a “estudantes do 3º ciclo do Ensino Básico, do Ensino Secundário e Profissional”. Mas como tenho duas filhas no 3º ciclo do Ensino Básico com aulas de TIC que deixam muito a desejar, algumas dadas pelo professor de história (irónico no mínimo) não compreendo porque é que uma iniciativa tão importante como esta não deve ser liderada pelo Ministério de Educação.

Já agora, porque não alterar o currículo para retirar referencias a disquetes, uma invenção dos anos 70 que em 2010 já não existia na maioria dos PCs à venda. Porque não alterar o currículo para que os nossos filhos não estejam aprender somente o que é hardware, software, ROM e BIOS. Porque não ensina-los a programar, já agora que existem inúmeras ferramentas que demonstram a facilidade de aprender a programar – CodeAcademy.com é só um exemplo. Acreditem que o que dão em matemática, história e física é bem mais difícil. E a única coisa que sabemos de certo sobre o futuro dos nossos filhos, é que a programação vai ser fundamental.

Quando vejo que a SPA, IGAC e a INPI estão a colaborar… melhor ficar por aqui.

Mas não resisto relembrar que a SPA não vai adoptar o acordo ortográfico sendo que “O professor Carlos Reis critica a decisão, acusando a instituição de estar a correr “atrás de lebres mal informadas ou tendenciosas”. Não quero imaginar o que ele deve pensar do Tudo Mudou, muito menos de todos os blogues a serem criados diariamente no Tumblr e WordPress na “lingua Portuguesa”.

Se quiser rir um pouco, pode sempre ler as “10 Coisas que deveria saber sobre a Lei da Cópia Privada” – sim “coisas”, porque lá escreve-se à antiga. Para não falar na total ignorância de tal lei -isto dava para um artigo à parte.

Oops, eu não ia comentar…

E o regulamento?

Os objetivos parecem ser bem claros, ou não:

  • Promover a literacia para os media digitais entre os jovens em idade escolar;
  • Incentivar os jovens a utilizar a Internet e as suas ferramentas (???) e a criar websites ou blogs enquanto editores e participantes ativos no desenvolvimento da internet – blogs e websites=desenvolvimento da internet?;
  • Alertar os jovens enquanto consumidores para os seus direitos digitais e à sua necessária salvaguarda – esta gosto – direitos= $$$;
  • Promover conteúdos e ideias empreendedoras em português – como assim, o Startup Pirates? A GoYouth Conference? A Switch Conference? Iniciativas de jovens Portugueses reconhecidas internacionalmente (em Inglês para não terem que utilizar o Google Translate)? ;
  • Promover o TLD nacional quer em Portugal quer na Europa, de forma a potenciar a geração de futuros novos clientes – TLD? Top level domain? Aquele .pt que nenhum adolescente vai perder mais que 1 minuto antes de verificar que é demasiado trabalho, está nas mãos de uns poucos e não se pode registar através de outros serviços TLD?

E quem é o júri? Um dos princípios da Internet é a transparência, por isso estranho não saber quem é o júri. Mas mais importante é saber a idade média de quem vai avaliar as propostas. Lá estamos nós, velhos do Restelo, a tentar moldar a juventude (perdida/analfabetos), só que desta vez, no seu território.

É que não sei se já viram mas o Português (jovem) está extremamente ativo online, na criação e partilha de conteúdos. O problema deve ser que nada passa pela SPA e outras entidades que existem para “salvaguardar” os direitos do autor. Estão a criar conteúdos mas com as ferramentas da sua escolha. Para não falar no facto que nenhum utiliza o “serviço” DNS.pt. Self hosting? Que raio de conceito…

Como não devem ter paciência para ir ver o regulamento, fica aqui o júri:

E o júri é:

a) Na 1.ª fase do Concurso o Júri será composto por:

  • Um representante da DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor;
  • Um representante do DNS.PT;
  • Uma personalidade de reconhecido mérito nesta área – nice.

b) Na 2.ª fase do Concurso o Júri será composto por (the mob):

  • Um representante da DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor;
  • Um representante do DNS.PT;
  • Um representante da DGE – Direção-Geral da Educação;
  • Um representante do GDA – Gestão dos Direitos dos Artistas;
  • Um representante do IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais;
  • Um representante do INPI – Instituto Nacional da Propriedade Industrial
  • Um representante da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores;
  • Um representante da ANPRI – Associação Nacional de Professores de Informática;
  • Outras personalidades a convidar – very nice.

Estará a salvação nas “outras personalidades a convidar”? Espero que sim. Boa sorte para uma iniciativa que deveria ter sido lançada no inicio do século, quando existiam (só) blogues e websites.

Imagem principal: Flickr/David Sasaki
Nenhuns animais ou outros direitos foram violados neste artigo – acho eu…

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