in Empreendedorismo

Qualquer pessoa que trabalhe por conta própria tem um conhecido, amigo ou familiar que, constantemente, desfia um rosário de litanias, descontentamentos e frustrações, ora porque não é reconhecido no seu trabalho, ora porque o patrão é incompetente, entre outras.

Atente-se, porém, no facto de a questão “ordenado” apresentar perfis diferentes consoante o contexto da conversa: o vencimento aumenta, milagrosamente, quando o indivíduo se vê na contingência de ter que justificar por que se mantém agarrado a um emprego tóxico, sendo que o sentimento de injustiça rapidamente se dissipa quando se antevê a possibilidade de uma nova frota de BMWs aparecer no parque de estacionamento, cuidadosamente alinhada na zona reservada.

Na minha humilde experiência, o verdadeiro (não confundir com certo ou errado) empreendedorismo não depende tanto de uma escolha, mas sim de uma força interna incontornável que nos leva a ter uma ideia que nos mantém acordados durante a noite; aquela ideia que, explicada à família, amigos ou qualquer pessoa disposta a ouvir-nos, provoca um olhar inquieto, percepcionado como um ato de ilusão ou alucinação da nossa parte; aquela ideia que ninguém viabiliza, muito menos se se tratar de nos emprestarem o equivalente a uma curta viagem de táxi; aquela ideia sobre a qual, os parcos amigos verdadeiros tentam, gentilmente, explicar-nos que o melhor mesmo é ficar quieto.

O que fazemos?

Avançamos com a ideia como se fosse um dado adquirido, um sucesso garantido, como se não tivéssemos nada a perder e tudo a ganhar. Como se, de repente, estivéssemos munidos de uns óculos especiais que veem o que a maioria nem imagina possível. Como se subitamente ficássemos esclarecidos e visionários num mundo que parece paralisado, inconsciente das grandes oportunidades.

Não acredito no empreendedorismo ensinado nas universidades e nos inúmeros cursos que surgiram para fazer face à procura de algo que foi destorcido, mediante as dificuldades do presente clima económico.

Acredito, verdadeiramente, no trabalho das incubadoras e aceleradoras que têm procurado equipar e munir os audazes de ferramentas e conhecimentos essenciais para sobreviverem à onda de burocracia subjacente à criação e gestão de uma empresa em Portugal. Dependendo do país onde se vive, criar uma empresa poderá ser realmente fácil ou uma enorme chatice, capaz de dissuadir os mais persistentes. Isto antes até de pensar na carga fiscal, caso venha a ter razão – a ideia lucrativa.

Assim, muitos wanabees, passam o seu tempo a tirar mini cursos de empreendedorismo, à espera que a “ideia certa” apareça ou que chegue a altura certa para embarcar numa estratégia com base na mitigação de risco. Sujeitam-se a um trabalho em part-time ou, mais provavelmente, a tempo inteiro que, com sorte, consiste numa tarefa sem grande exigência a nível de carga horária, permitindo-lhe uma estabilidade financeira ( o equivalente a molhar o dedo grande do pé).

Uma coisa é certa: nunca terá sucesso, quer no seu local de trabalho (temporário), quer na sua grande ideia – agora um passatempo. Molhar o pé é isso mesmo – o equivalente a entrar no mar, devagarinho, dificultando a respiração, cada vez que as ondas invadem as zonas mais periclitantes do nosso corpo: o cérebro ordena-nos que nos retiremos – “recua”, “recua”, enquanto saltamos, convulsivamente, para cima e para baixo, molhando-nos ainda mais. O cérebro intervém – “nem pensar em molhar a cabeça”.

Os aventureiros nunca mergulham os pés em água que reconhecem, à partida, estar fria. De certa forma, aceitam que, se saltarem, cabeça primeiro, tudo correrá bem, adaptando-se à nova realidade. Nadam freneticamente como se fugissem a um tsunami, emergindo depois com um enorme sorriso e sentido de realização.

Gelo

Afinal, não é assim tão difícil. Acredite, estes são sintomas de uma doença crónica, sem cura aparente, portanto, se é, por acaso, uma daquelas pessoas com um emprego “estável” à espera da oportunidade perfeita para se evadir do lado sombrio da vida para o mundo das maravilhas, pense bem… E agora, pense novamente. E se por acaso ainda está a pensar, não desista, pois existem bulas para a indecisão. Relaxe, olhe para o céu e desfrute a beleza da vida que os empreendedores raramente têm oportunidade de apreciar.

Se é um doente crónico, não desista, pois, quer a medicação certa, quer a reabilitação adequada poderão salvá-lo, sendo que a toma dos comprimidos errados arrumará consigo. Aqui sim, tem uma escolha a fazer – a sua escolha.

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