in Facebook, PR, StartUps

Facebook gerou 4,5 milhões de empregos em 2014” – que bom seria se fosse verdade. O que os diferentes jornais – que se limitaram a copiar ou utilizar o press release do Facebook – deveriam ter divulgado como fidedigno era – “Facebook encomenda relatório para utilizar como PR”.

Sabe-se que o facto de Mark Zuckerberg ter publicado a 20 de janeiro no seu timeline: “A new economic report found that Facebook created more than 4.5 million jobs and more than $225 billion of economic activity in 2014” também não ajudou; algo que levou quase 100,000 almas a clicar no “like”, 4,500 a partilhar e mais de 7,000 comentários – impressionante se não estivéssemos a falar do fundador de uma rede de mais de 1,4 mil milhões de utilizadores: uma noticia sensacionalista numa altura em que um dos maiores problemas no mundo é o desemprego bem como a crise económica que se arrasta há mais de 5 anos.

Mark Zuckerberg

Não é que o Facebook não seja útil para muitos – basta ler os comentários de quem vive em países como Ghana que recebeu há pouco tempo network access to free basic internet services for education, health, jobs and communication”, ou seja, acesso ao Facebook através do Facebook lite. Até porque muitos ainda veem o Facebook como uma plataforma que os ajudou a unir povos oprimidos por ditadores violentos, conseguindo dar voz a quem vivia aterrorizado, longe dos olhos do mundo.

Seja como for, o problema não reside na definição ou utilidade do Facebook – se é o bom ou mau, se leva ou não à perda de tempo ou se cria novas oportunidades – isso cabe a cada um decidir. A questão está ligada com o que se está a passar nos Estados Unidos e atualmente na Europa, como consequência da importação do conceito “Silicon Valley”.

O “relatório”

Assumindo que a maioria utilizou/publicou o press release sem sequer ler o relatório, devemos começar no inicio – o disclaimer, ou “important notice” da Deloitte que retira toda a responsabilidade do conteúdo ali escrito. Nada de novo. Mas quando começamos a ler que o “relatório” foi “comissioned” (pago) e preparado somente para estimar o impacto do Facebook na economia, começamos a ter algum contexto para o que se segue.

Lendo o restante relatório verificamos que o estimar foi largamente amplificado neste contexto, contando, obviamente, com o facto de que a maioria não o iria ler e que a imprensa se limitaria a publicar a notícia que gera mais impacto (page views) – “4,5 milhões de empregos em 12 meses “.

A Deloitte salvaguarda igualmente que o âmbito do estudo foi muito reduzido mediante a falta de tempo, as informações e explicações fornecidas pelo próprio cliente, o Facebook, mantendo alguns dos aspetos do estudo confidenciais. Por fim, a Deloitte explica não ser possível corroborar essa informação, muito menos a sua razoabilidade.

As Conclusões

Aparentemente, o Facebook é responsável por um impacto global equivalente ao PIB de Portugal, porém, na realidade, e conforme economistas independentes, os pressupostos utilizados são demasiado questionáveis – valorizando erradamente cada “like” e de forma excessivamente ténue, assumindo responsabilidade por 1/6 das vendas de smartphones do mundo.

“The results are meaningless,” declarou Roger Noll, economista em Stanford. “Facebook is an effect, not a cause, of the growth of Internet access and use.”

Todavia, não é só Mark Zuckerberg que acredita que o mundo revolve em torno do Facebook; Sheryl Sandberg, COO do Facebook, defende este estudo e este tipo de afirmações, acreditando que “Facebook é um dos principais impulsionadores para a compra de telemóveis, especialmente no terceiro mundo”. Pior, Sandberg acredita que a maioria das pessoas entra numa loja para comprar um dispositivo dizendo “Eu quero Facebook”.

Para justificar a conclusão que Facebook é responsável pela venda de 1/6 dos telemóveis no mundo, e aqui vamos assumir smartphones dado que estamos a falar de Facebook – uma app – Ana Aguilar, diretora da Deloitte responsável pelo “relatório”, cita um estudo Europeu em que 16% dos inqueridos dizem não conseguir viver sem social media. Ora social media não é Facebook.

The value of smartphones is that they help you read Facebook — in addition to other benefits — not vice versa,” diz Tyler Cowen, professor de economia na George Mason University, concluindo que os cálculos do estudo têm um “mau raciocínio.” Leia mais no The Wall Street Journal.

O Facebook de Hoje

Na publicação Dinheiro Vivo, o parágrafo final do artigo “Facebook Gerou 4,5 milhões de empregos em 2014”, é tão vago quanto enganador. “Facebook incentiva o crescimento económico, na medida em que facilita o acesso das empresas aos consumidores locais, nacionais e globais; ajuda-as a aumentar a notoriedade das suas marcas e a mais facilmente identificarem as pessoas que mais se interessam pelos seus produtos ou serviços; e apoia o empreendedorismo, ao facilitar a promoção.“

Alguns estranharão saber que no início do Facebook, altura em que na realidade as empresas até ganhavam com a sua presença na rede social, não existia o conceito do “like”, mas sim do fã. Mas o Facebook apercebeu-se que a palavra fã era demasiado forte, com conotações que não permitiam a massificação. As marcas tinham poucos fãs, comparando com os milhões de “likes” que agora detém – não se cria um modelo de negócios se as marcas principais, com dinheiro para investir, não tiverem uma “audiência” massiva, algo que o “like” trouxe à plataforma. Contudo, esses fãs eram, em grande parte, genuínos e de maior valor para a marca do que os que agora clicam no “like” sem grande reflexão, para não dizer nenhuma.

Facebook Like

Atribuir um valor ao “like”, hoje em dia, é inútil, e só demonstra a verdadeira razão de encomendar tal estudo. Verificamos também que no timeline, os utilizadores veem conteúdo de forma casual, que normalmente não procurariam, porém a visibilidade do mesmo deveria ser mais ampla, evitando assim que as marcas tivessem que pagar para serem vistas por mais que os 6-10% que o Facebook permite.

Para ter acesso aos seus “likers”, as marcas são obrigadas a comprar o acesso aos mesmos, em formato de boost por exemploou seja, pagam para ter acesso aos seus próprios seguidores e quem os segue. Ora, assumir que este formato resulta num “crescimento económico” por causa do Facebook e não pelo investimento das marcas, é enganoso. Podemos é assumir que, na realidade, o “crescimento económico” provém do investimento das marcas em publicidade, seja ele no Facebook, social media, online e/ou offline e não o inverso.

O verdadeiro problema e a solução errada

O formato Silicon Valley está desenhado para favorecer os investidores e os poucos fundadores que ganham neste jogo com probabilidades inferiores a um casino. Para Mark Zuckerberg e Travis Kalanick da Uber (avaliada em mais de $ 40 mil milhões de USD), o sistema funciona lindamente. Para todos os outros, o resultado é miserável e devastador em muitos casos.

Em Portugal, os investimentos estimulados por programas que visam diminuir o desemprego e aumentar o “crescimento económico” estão a fazer tudo menos isso, dado que a maioria dos investimentos direcionam-se para empresas de tecnologia, as que gerem menos emprego e para quem tem um tipo de competência específica. “Em 2013, o setor da Informação e comunicação foi o que mais se evidenciou nos gastos com o pessoal per capita, com cerca de 30 000 mil euros, bem acima da media nacional de 13 580 euros, embora tenha sido o que assegurou o menor volume de emprego (0,2% do total).” – Instituto Nacional De Estatística publicado em 2014.

Na sequência do elevado índice de desemprego, e tendo conhecimento de que a maioria dos empregos perdidos nunca voltarão a existir, os políticos defendem a necessidade de criar o próximo hub tecnológico em Lisboa, Porto, Paris, Londres (“Silicon Roundabout”), Munique, Berlim, Frankfurt, Madrid, Barcelona, Milão, Dublin, Estocolmo, Uusimaa, Amsterdão, Leuven, Edimburg, Viena – e a lista continua.

Silicon Roundabout

Silicon Roundabout – Londres

Em Portugal e no resto da Europa enfrentam-se diversos desafios, dois dos quais não serão resolvidos com a criação de hubs tecnológicos ou por tentar tornar-se no próximo Silicon Valley: um é a alta taxa de desemprego – com alguns países a atingir elevadíssimas e insustentáveis percentagens de desemprego jovem, especificamente a Itália, com 35,3%, Portugal, com 37,7%, e Espanha, com 54,3%, todas mostrando um aumento progressivo ao longo do tempo; o segundo desafio é a ênfase política colocada em soluções de curto-prazo que gerem o maior impacto em Relações Públicas. É o que é esperado, uma vez que os políticos estão conscientes de que o seu mandato no cargo será de curta duração como resultado das suas políticas – um círculo vicioso.

Só em termos comparativos, a Eastman Kodak tinha na altura 40,000 colaboradores, mas foi “disruptada”. A Instagram, por contraste, tinha 13 colaboradores quando foi comprada pelo Facebook. Note-se que não se trata de uma questão de estarmos contra a inovação e a evolução, mas termos consciência de que o investimento em startups não pode ser justificado através do objetivo de criação de emprego e crescimento económico. Poucos postos de emprego são criados e nunca se assistiu a uma discrepância tão grande entre pobres e ricos.

Para Que Serve Este “Relatório”?

Não é segredo nenhum que as relações entre as principais empresas de tecnologia de Silicon Valley e os reguladores na Europa estão cada vez mais degradadas. A concentração de poder da Google, a falta de pagamento de impostos (sales tax) da Amazon e o total desprezo da Uber pelas leis locais têm criado uma aversão a estas empresas, mas acima de tudo, ao que Silicon Valley significa presentemente.

A realidade, no entanto, é que nós, os utilizadores, queremos estes serviços, e as empresas que tanto criticam a Google, exigindo pagamento pela indexação dos seus conteúdos, também necessitam de todo o tráfego que o motor de busca envia para cada um dos seus sites.

Após anos de confrontos, os grandes da tech de Silicon Valley estão a perceber que vão ter que mostrar que não se limitam a tornar o utilizador no produto, ignorando as leis, a privacidade e a responsabilidade de pagar impostos, mas acima de tudo que respeitam a nova Comissão Europeia, empenhada em reforçar o investimento na tecnologia na Europa, bem como em travar alguns dos abusos que acreditam estarem a acontecer no seu terreno.

Travis Kalanick esteve presente na DLD Conference em Munique, na Alemanha, ciente de todos os “inimigos” que terá feito em praticamente todas os países Europeus. Ao mesmo tempo, publicou um blog post intitulado “A New Partnership with Europe” no qual refere que a Uber tem como objetivo adicionar 50,000 novos postos de emprego – eu diria mais “substituir”, ou pior, “diminuir”. Cada Uber vai certamente ter um impacto noutros empregos, nomeadamente taxistas – isto, independentemente de estarmos a favor ou contra estes serviços, de acreditarmos ou não na inovação, de existirem lobbies neste sector de transportes.

Trata-se de percebermos se, de facto, estas empresas estão a aumentar a empregabilidade e para onde vai o “crescimento económico”. É aqui que o “relatório” do Facebook serve os interesses da empresa que o encomendou – a falsa promessa de criação de milhões de empregos e crescimento económico. Uma forma de pressionar os reguladores. Mais emprego em torno de menos regulação, ou seja, deixem-nos fazer o que queremos e vão ter mais emprego. Caso contrário levarão o seu negócio para outro lado. Mas para onde?

EC Regulators

O vice presidente do Facebook também apresentou a sua visão na conferencia na Alemanha, avisando que a pressão da regulação na área da tecnologia irá certamente ser prejudicial para as empresas europeias.

“Success doesn’t come because of regulation or a lack of regulation. Success comes because you create an environment where you deliver successful companies. As a European entrepreneur, I hope that we can create that environment here in Europe so that the next companies like this are actually built here rather that in the U.S.” – so falta mesmo a sua definição do que é uma “empresa de sucesso”.

Até poderíamos aceitar este comentário caso os investidores Americanos não estivessem a investir nas startups Portuguesas, obrigando-as a criar a empresa em Inglaterra, Estados Unidos ou qualquer outro país que dê aos investidores as melhores condições fiscais. Alguns colaboradores ficam em Portugal – os programadores, simplesmente porque temos mão de obra bastante qualificada e provavelmente demasiada barata. Não parece ser a estratégia que a Europa necessita.