Portugal

Peço Desculpa, “Mas Portugal Inspira-nos!” Não me Inspirou, Bem Pelo Contrário

Desde o inicio da campanha “Compre O Que É Nosso” que mantenho a ideia de que estaríamos a caminhar para o lado errado, uma brincadeira cruel que joga a favor do nosso estado atual de vulnerabilidade.

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Desde o inicio da campanha “Compro O Que É Nosso” que mantenho a ideia de que estaríamos a caminhar para o lado errado, uma brincadeira cruel que joga a favor do nosso estado atual de vulnerabilidade.

Todos sabemos que temos muitas empresas portuguesas de sucesso em Portugal, mas nunca as vi preocuparem-se com o consumidor (Português), com as dificuldades que têm em pagar as contas e em sobreviver.

O nosso maior problema nunca foi a falta de nacionalismo. A maioria dos portugueses ama Portugal e tem orgulho em ser Português, mas também já percebeu que todo esse orgulho pouco importa. Não é através da motivação ou inspiração que vamos alterar o nosso rumo. É sim através de uma consciencialização que de facto as nossas prioridades estão erradas.

O nosso problema reside, fundamentalmente, na falta de igualdade; na deterioração do nosso sistema de educação; na alteração dos nossos valores; e em considerarmos que tudo isto se resolve com ar quente. Já devíamos ter aprendido a lição.

Estamos perante a moda do startup, inovação e empreendedorismo. Somos emotivos e de extremos – ainda há pouco troçávamos dos americanos e da sua aparente ingenuidade ao abraçar os soft skills.

Eram poucos aqueles que falavam em publico, que ouviam Anthony Robbins…eis senão quando, repentinamente, começamos a ouvir os profetas portugueses que, após uma presença no Prós e Contras, possuem agora o segredo do sucesso, da realização pessoal, completos com cursos intensivos na arte de viver em paz e harmonia.

Também gostaria de acreditar, mas a experiência como empreendedor em Portugal marcou-me. Como português que veio do “estrangeiro” para trabalhar no meu país, acreditando plenamente no seu potencial, acabei por cair na realidade que não estamos preparados para o empreendedorismo: não temos os mecanismos nem a cultura para abraçar estes desafios. É tudo muito complexo, burocrático e o caminho está armadilhado.

Superamos um desafio que nos leva a outro. Mas continuamos a lutar, para uma vida e um país melhor. Mas poupem-me dos quick fixes, do marketing do marketing e das promessas ocas.

“O Lidl aderiu ao “COMPRO o que é nosso” e nos próximos seis meses o símbolo “COMPRO o que é nosso” vai estar bem visível nas embalagens de cerca de 250 referências de 50 marcas próprias do Lidl. A adesão foi efetuada na semana em que o Lidl lançou a campanha “sabores portugueses” e um cabaz 100% nacional, ao preço de 5 euros. A adesão do Lidl ao “COMPRO o que é nosso” evidencia a aposta do Lidl na produção nacional, contribuindo assim para a criação de emprego no nosso país e para o desenvolvimento da economia nacional.“

Sério? Lidl lohnt sich. Português claro. Seis meses? Então, podemos assumir que o que nos pedem, como consumidores, é que adiramos ao “Compro o que é nosso” durante seis meses com alguns produtos… mas então, a ideia não era, supostamente, comprarmos SÓ o que é Português?

E cobardes são aqueles que partem para outras terras em busca do que Portugal não lhes conferiu? Não. Nenhum vive bem, sendo que a maioria, (sobre)vive repleta de saudades do seu país. Para aqueles que ficam, a cruel realidade chega mascarada numa crise. Mas a crise revela a falta de nacionalismo que o mundo corporativo tem e o que nos resta é exigir novamente ao povo que resolva os problemas criados pela ganância de alguns?

Todavia, a questão é bem mais complexa, e permitam-me apontar apenas dois pormenores que revelam o quão enganados estamos: o blogue do “manifesto” Portugal Inspira! está alojado no Blogspot. Português? Não. Fácil, sim. A criação de uma landingpage foi alojada utilizando um serviço Português? Não. Utilizam KickoffLabs.

Pedante? Não. A ironia desta iniciativa reside no facto de que, o que o que é pedido ao consumidor Português, é que procure e prefira produtos nacionais, independentemente de serem mais caros, mais difíceis de utilizar ou encontrar. Mas para passar a mensagem, já se pode encurtar caminho utilizando uns serviços americanos que, por acaso, são bem mais baratos e eficazes que os portugueses (ou não).

Até o vídeo que partilham na sua página do Facebook demonstra a falta de noção que existe neste tipo de iniciativa: com tantos artistas portugueses, tiveram que utilizar Peter Gabriel? Eu percebo, mas é uma mensagem confusa e incoerente.

httpv://youtu.be/i3NfNWfTpQk

E este é o dilema do Português que quer na verdade ajudar Portugal a vencer, a ser melhor e a sair deste buraco que aumenta, mês após mês. As empresas  Portuguesas devem agir, têm de agir, mas enquanto não resolvermos o que está “partido” na nossa sociedade, cada iniciativa destas não passará disso mesmo, uma ideia bem intencionada carregada de hipocrisia e amadorismo.

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